Paulo Pimenta

Crónica

E tudo o fogo levou

Para além das estatísticas e no meio do inferno de chamas, as lágrimas, os soluços e o desespero despertam, substituindo-se às palavras e às vozes quando estas se tornam inutilmente pequenas face à dimensão trágica

Texto de Sebastião Ferreira de Almeida • 15/10/2017 - 13:33

Sebastião Ferreira de Almeida
Sebastião é bolseiro de doutoramento em Arquitectura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos e investigador no DINAMIA’CET

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Só este ano já arderam em Portugal milhares de hectares, representando mais de metade da área total ardida da União Europeia. É o pior ano da década em matéria de incêndios. Para além das estatísticas e no meio do inferno de chamas, as lágrimas, os soluços e o desespero despertam, substituindo-se às palavras e às vozes quando estas se tornam inutilmente pequenas face à dimensão trágica, indescritível, de perdas turbulentas e irremediáveis.

 

Acompanhamos as populações atingidas pelos fogos, não deixando de sentir, mesmo que à distância, o seu calor, sulcando o lugar onde mais profundamente se cosem as nossas inseguranças — o lugar do medo; o medo de estarmos sós, o medo de sermos deixados para trás, o medo de desaparecer num deserto de silêncio. Em Pedrógão Grande morreram pessoas em estradas apanhadas pelas chamas, morreram pessoas a fugir das suas aldeias cercadas pelo fogo, morreram pessoas nas suas casas à espera de um socorro que não chegou. Houve relatos de bombeiros exaustos e impotentes perante infernos de labaredas, houve jornalistas que expuseram a tristeza em directo e que nela sucumbiram, houve políticos que se abraçaram em lágrimas frente aos holofotes e às câmaras, houve pessoas que se "extinguiram" mesmo que tenham sobrevivido à "extinção" do próprio fogo.

 

Neste domingo, 15 de Outubro, a história repetiu-se, quase 500 ignições, mais 31 mortos e 51 feridos, populações em pânico a serem evacuadas, outras a tentarem pelos próprios meios salvarem os seus bens, estradas cercadas, cortes nas comunicações, cortes nos sistemas de distribuição de água e electricidade, concelhos, aldeias, casas e empresas ardidas, autarcas e comandantes de bombeiros incrédulos. Reavivam-se as causas e multiplicam-se explicações: criminalidade organizada, desordenamento florestal, fenómenos climáticos extremos, o SIRESP, a actuação da protecção civil.

 

Os fogos a que temos assistido são, de facto, difíceis de combater e resultam de múltiplos factores, mas são principalmente o sintoma profundo de uma causa maior, o desaparecimento estrutural e progressivo das zonas rurais. Estes territórios e as suas comunidades há muito que viram as suas funções sociais e económicas serem erodidas, esvaziando-se de populações e sendo progressivamente esquecidos pelo Estado. Territórios sem votantes são também territórios sem políticas, deixados à sua sorte.

 

Voltemos agora à tragédia deste domingo e olhemos para as declarações do secretário de Estado da Administração Interna, da ministra da Administração Interna e do próprio primeiro-ministro, António Costa. Desta vez, as emoções foram contidas. O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, referiu que as populações têm que ser pró-activas e resilientes, não devendo esperar que os bombeiros e aviões possam chegar a todos. Já Constança Urbano de Sousa referiu que a maioria dos fogos observados este fim-de-semana resultaram de comportamentos inadequados ou criminais e que, tendo em conta o número de ignições, não há dispositivo que lhes possas responder. Por fim, o primeiro ministro, António Costa, referiu, já no final da noite, que estas situações irão certamente continuar a acontecer, enquanto não se começar a fazer a reforma da floresta, cujo efeito prático irá demorar algum tempo. Chegou ainda a referir que os portugueses “são adultos” e compreendem o seu raciocínio, apontando ainda o dedo aos jornalistas por não terem dado a cobertura necessária a este assunto ao longo dos tempos.

 

Aos portugueses que habitam os meios rurais, depois de anos a sofrerem os efeitos de um esquecimento político e económico progressivo, pede-se agora que "sejam maduros", que aguardem, que se auto-protejam e que não esperem, nos momentos próximos, que a ajuda das instituições do Estado possa ser totalmente abrangente e global. Sim, o problema é complexo e implica tempo, envolve a reforma da floresta e o ordenamento territorial, envolve mitigar o despovoamento rural com políticas de desenvolvimento, envolve perceber quais as causas por detrás de tantos fogos postos (as suas origens económicas e sociais).

 

A verdade, contudo, é que aguardamos há décadas por estas medidas e as causas estão há muito identificadas. Pedia-se a quem representa o Estado mais humildade e até uma assunção de responsabilidade em representação dos partidos que têm governado o país ao longo dos tempos, isso sim, um sinal inequívoco de maturidade política. Não se trata de aproveitar catástrofes em nome de aproveitamentos políticos, isso efectivamente é obsceno e não resolverá os problemas. O povo português “adulto” não pede demissões, mas pede mais proximidade nas palavras proferidas a partir do conforto dos centros de decisão. A quem tudo perdeu, inclusive a própria vida ou a dos seus, no meio das cortinas de fogo, as declarações proferidas podem soar longínquas e até legitimamente ofensivas. Aos representantes do Estado exige-se mais do que lamentar e enunciar um discurso de inevitabilidade a curto prazo. Exige-se que o Estado não abandone estas populações nem mais um minuto, nem nos actos (capazes de resolver os problemas, como defende o primeiro-ministro) nem nas palavras.

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