A guerra no Afeganistão “não é como nos filmes”

autoria Ana Marques Maia

// data 18/12/2017 - 10:50

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"A guerra é 90% tédio." Quem o diz é Louie Palu, em entrevista ao P3. O fotojornalista canadiano, autor do fotolivro de guerra Front Towards Enemy, conhece bem a realidade no terreno e garante que "nada é romântico como nos filmes". "Passa-se muito tempo simplesmente à espera que algo aconteça. Vive-se arrebatado pelo calor, pelos insectos, pelas doenças gastrointestinais e pela exaustão de carregar mais de 45 quilogramas de equipamento fotográfico e de protecção pessoal", explicou. A sua experiência no Afeganistão, intermitente entre 2006 e 2010, é difícil de traduzir por palavras. "Acho que os próprios veteranos de guerra passam o resto das suas vidas a tentar entender o que lhes aconteceu", explica. Mas "aqueles que sofrem mais são os civis", sublinha, "em particular as crianças". "Lembro-me de ver dois rapazes a serem resgatados por uma equipa médica após uma explosão; foram atingidos por estilhaços e ficaram permanentemente cegos. Houve um médico, por exemplo, que participou em mais de 350 missões de evacuação na linha da frente; foi enviado para casa antes de terminar o seu período de serviço por não aguentar a pressão. Eu próprio, durante o período que passei no helicóptero [de salvamento] MEDEVAC, vi ferimentos tão violentos que, passado algum tempo, o meu cérebro deixou de ser capaz de processar tamanha carnificina."

 

A experiência de fotógrafos em ambiente de guerra, sempre voluntária, conduz frequentemente a uma questão: porquê? O que leva um civil a enfrentar voluntariamente esse cenário? "Os meus pais nasceram antes da Segunda Guerra Mundial e cresceram como testemunhas de violência de guerra. Eu cresci a ouvir as histórias de trauma e pobreza da minha família e fui ensinado a ter uma ligação profunda às minhas raízes. Regressei à guerra repetidamente porque queria compreender as suas experiências. Eu sou um jornalista e não um soldado. Nunca peguei numa arma." Front Towards Enemy, no entanto, pode ser visto como uma arma contra o esquecimento e a normalização das atrocidades de guerra. O formato é singular e a leitura é intencionalmente desafiante. "O livro obriga o leitor a 'trabalhar' para compreender", explica Palu, "porque a própria realidade da guerra é intrincada".

 

O corpo de trabalho que desenvolveu ao longo de 26 anos enquanto fotógrafo documental não se resume à fotografia de guerra. Os projectos debruçam-se sobre os temas dos direitos humanos, da pobreza, de questões de natureza política e social. As imagens de Louie Palu já foram distinguidas nos concursos de fotojornalismo e fotografia documental Pictures of the Year International (POYi), NPPA, Alexia Foundation, e já conheceram publicação no New York Times, New Yorker, Al Jazeera, BBC, Time, Newsweek, Washington Post, entre outros de igual relevância.

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