Paulo Pimenta

Porto

Um fotógrafo em busca das vidas anónimas de um álbum esquecido

São mais de 10 mil fotografias a preto e branco, tiradas entre Março de 68 e Setembro de 69 no Porto. Pau Storch, fotógrafo, resgatou o enorme álbum de uma feira de velharias. E agora anda À Sua Procura. Projecto quer voltar a fotografar aquelas pessoas e contar as suas histórias — 50 anos depois

Texto de Mariana Correia Pinto • 10/10/2017 - 15:58

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Reconheceu o reflexo do papel de fotografia a alguma distância. E então aproximou-se. Numa banquinha de velharias, estava um livro comprido e volumoso, capa escura e envelhecida, folhas enrugadas pela humidade, sinais de um tempo distante. Pau Storch brilhou como brilhava o reflexo das fotos. Aproximou-se mais, abriu o livro. “Início em 15-3-968, findo em 17-9-969”, lia-se na primeira página. Era um álbum de fotografias tipo passe. Um volume de consulta do fotógrafo, certamente, rabiscado aqui e ali com notas úteis (“correio”, “foi”), os meses e anos gravados a vermelho, um número para cada rosto. Era Novembro de 2016. Pau Storch, fotógrafo, estava no Porto de passagem, numa visita a familiares. Quis mudar o destino daquele álbum no mesmo instante. Mas não decidiu de cabeça quente. Ficou com o contacto do vendedor, estacionado numa feira de antiguidades na Rua da Galeria de Paris, junto aos Clérigos. Talvez lhe ligasse mais tarde.

 

Aconteceu em Fevereiro seguinte. O fotógrafo, nascido em Barcelona e rendido a Portugal há duas décadas, arrancou o álbum do esquecimento porque ele não lhe saía da cabeça. Foi uma “compra egoísta” inicialmente, um voyerismo compreensível. “Queria ver aquelas imagens de perto, os rostos, saber como era a fotografia e aquele Portugal antes de 1974.” Depois, percebeu que era mais do que isso. Queria salvar aquelas figuras de um destino num caixote do lixo e partilhar os retratos delas. E se encontrasse aquelas pessoas e lhes oferecesse uma viagem no tempo, às recordações e sonhos de há 50 anos?

 

Número 93 da Rua de Cedofeita, Porto. Passa pouco das 11 da manhã e Fernando Ramos faz pose para a câmara. Ele é o número 142195 do álbum — e o primeiro retratado encontrado por Pau Storch entre as mais de 10 mil fotografias do seu livro resgatado. Com Isa Lopes, o fotógrafo residente em Cascais está em busca daquelas pessoas — À Sua Procura, quem sabe, como sugere o nome do projecto desta dupla. Aos poucos, vão partilhar no Facebook e Instagram os retratos antigos em busca dos donos. Querem voltar a fotografar e entrevistar aquela gente (ou familiares) — e dali fazer nascer um livro, talvez, uma exposição, seguramente. Para ali chegarem, já muita pesquisa se fez. A primeira pista estava inscrita no próprio livro, num carimbo cuja tinta foi parcialmente engolida pelo tempo. Com um lupa e muita paciência, chegaram àquela morada. “Ou era o número 93 ou o 98, não se percebia bem”, conta a arquitecta Isa Lopes. Investigação online, no arquivo municipal do Porto, telefonemas para a associação de comerciantes. Quem era, afinal, o fotógrafo ali residente?

 

O fio conduziu-os a imagens antigas. Da fachada verde escuro com a inscrição em letras garrafais “Fotografia Universal” nada resta. Ainda se conservam as duas vitrinas, uma de cada lado da porta. Lá dentro, um Airbnb qualquer. Fernando Ramos tem 66 anos, tinha 22 quando ali fez um retrato.

- Conhece-se?

- Conheço-me... E dá algumas saudades.

 

A conversa faz-se lenta, como vagaroso se pede um regresso ao passado. Fernando era estudante na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, na Rua dos Bragas, a poucos minutos dali. “Tenho a impressão de que tirei esta fotografia para o cartão da UNICEPE, [Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto]”, diz enquanto se vê, óculos de massa, camisa branca com gravata, camisola e blazer. Natural de Vila do Conde, Fernando Ramos começou por escolher Coimbra para fazer o curso. Na cidade dos estudantes, mais longe de casa, o contacto com os pais era feito “por carta”, havia mais liberdade. Mas “era fácil perder-se” também. “No primeiro ano ainda fiz todas as cadeiras, depois não...”. Com o serviço militar obrigatório a impor celeridade, o estudante de engenharia química decidiu então dedicar-se “a sério” aos estudos e pedir transferência para o Porto. Com uma licenciatura, pensou, teria vida mais fácil na tropa.

 

Formou-se em 1971, um ano depois foi chamado para o Ultramar. Apaixonou-se por Moçambique, “apesar da guerra”. Fez amigos para a vida, enredados numa camaradagem de quem partilha o agora sem saber o quem vem logo depois. Quando Abril nasceu em Portugal ele estava em África: “Fui dos que fiquei para tirar de lá a Frelimo.” Voltou em Setembro, trabalhou na fábrica de Mindelo, uma das maiores empresas têxteis do país, voltou a África várias vezes, viajou muito. Casou-se duas vezes, teve dois filhos. Tem um enteado e já é avô.

 

No tempo daquele retrato sem cor, a vida dele era o curso. “Tinha de o acabar para ir para a tropa. Não havia opção. Havia guerra: ou se ia ou se fugia. E eu nunca fui de fugir”, conta. Os sonhos daquele estudante estão cumpridos. “O meu objectivo era ir para a guerra e depois arranjar um emprego, casar-me, ter filhos...”

 

"Um mergulho na história"

Isa Lopes, arquitecta em ateliers durante dez anos, trocou o seguro pelo incerto em 2009. Despediu-se do trabalho de horas infinitas e pouca realização para se dedicar a projectos de arquitectura de interiores. Fez cursos de iluminação, de teatro e um de Feng Shui que lhe mudou a vida. “Ensinou-me a ler as pessoas. Foi muito importante no meu trabalho e no resto”, comenta. É essa leitura que quer juntar ao projecto fotográfico de Pau Storch. Enquanto ele retrata as pessoas quase 50 anos depois, ela fará as entrevistas para depois contar as histórias por detrás dos rostos.

 

Que vidas estarão escondidas naquelas imagens, num Portugal ainda amordaçado, numa rua de Cedofeita não pedonal, onde passava o eléctrico, uma artéria de excelência da cidade? Quem serão aquelas famílias, bebés, crianças, noivas, mulheres de penteados formais e homens de gravata, freiras, padres, militares? “Isto é um mergulho na História”, comenta Isa Lopes enquanto vai virando as enormes folhas do livro como se o aconchegasse. Há fotografias que não lhe saem do pensamento. Como a de uma senhora com ar de “actriz de cinema”, cabelo muito armado, caracol desenhado à frente do rosto. “Comecei logo a imaginar se seria uma fotografia para mandar a alguém que estava na guerra, se tinha sido feita para o namorado ou marido”, apraz-se. A intuição diz-lhe que encontrará histórias de amor. Quer muito encontrá-las. “Imaginemos uma pessoa retratada numa página que se apaixonou por uma pessoa colada noutra folha mais à frente”, fantasia Pau Storch, fã assumido do projecto Humans of New York.

 

O álbum repousa numa mesa na esplanada da confeitaria Aliança, mesmo ao lado da antiga casa de fotografia. E quem passa em Cedofeita não fica indiferente ao calhamaço e ao cenário de estúdio improvisado na rua. Maria Alcina e Ana Paula Vieira aprontam-se. Conheciam bem a Fotografia Universal. As duas foram lá fotografadas vezes sem fim. Maria Alcina abre a carteira e vai mostrando: “Esta foi tirada aqui, mas foi há poucos anos, já é a cores”, conta. “Destes anos, [68 e 69] acho que não tenho nenhuma”, diz enquanto vai vasculhando o livro para tirar teimas.

 

Oportunidade para recolher informação. “Lembra-se do fotógrafo?”, pergunta Isa Lopes de caderninho de notas na mão. E elas lembram-se, sim. “Era o senhor Júlio. Simpatiquíssimo. Baixinho, forte, cara redonda.” Pau Storch e Isa Lopes iluminam-se. Júlio Morais. É esse o nome que mais vezes apareceu nas pesquisas deles. “E ele tinha um filho...”, atira Isa. “Havia um avô, um filho e um neto, o Hugo, eu conheço-o.”

 

Hugo Morais. De repente, da informação pouco concreta que tinham e de uma primeira visita à rua, em que os comerciantes os receberam com desconfiança (“disseram-nos depois que andavam por aqui muitas vezes cobradores do fraque e pensaram que éramos mais uns”, conta Isa), fez-se alguma luz.

- Sou o neto, sim, e também trabalhei lá.

 

A confirmação chega ao P3 via telefone. Com novas informações. Hugo era filho de Júlio que era filho de Hernâni. Todos fotógrafos. E a casa Fotografia Universal tinha sido passada ao avô de Hugo por Maurício Meneses Correia, “há uns 70 anos talvez”. “A casa existiu por uns 130.”

 

Hugo não guarda pormenores. Se conversou com o avô sobre o início de tudo isto já não tem memória. Sabe com certeza que Hernâni Morais, falecido há coisa de uma década, “tinha muito gosto na fotografia” e, como Júlio Morais, viveu o negócio nos tempos de ouro. “Ia lá a família Sá Carneiro, o Valente de Oliveira, o médico Pinto da Costa com a sua esposa”, recorda, “tínhamos muitos clientes conhecidos e muitos fiéis”.

 

Também ele chegou a trabalhar ali por uns 20 anos. Há coisa de três, fechou portas, vergado a uma crise do sector que tornava impossível a sobrevivência. “Tentei até à última, mas não foi possível”, lamenta. A Fotografia Universal vivia muito das imagens de trazer na carteira para as matrículas nas escolas. “Havia muitas” naquela zona. Mas algumas fecharam. O bilhete de identidade também já não pedia um retrato. Foi uma bola de neve.

 

No primeiro piso do edifício, estava guardado o “enorme” espólio da casa: “Por baixo, diria que tínhamos um milhão de fotografias. Mas muito por baixo...”. Grande parte do arquivo estragou-se quando a água se foi infiltrando no antigo prédio tipicamente portuense. O pai, agora com 67 anos e já reformado, terá parte desse espólio guardada, mas não muito. Como foi parar aquele álbum a uma feira de velharias Hugo não sabe. “Talvez tenham ficado alguns perdidos no prédio quando saímos, talvez venha daí”, supõe. Vender as imagens nunca foi cenário aceitável para a família Morais. “Por nenhum dinheiro o fazia”, garante Hugo, “aquelas pessoas merecem todo o nosso respeito”.

 

Quando fazer um retrato "era um acontecimento"

Isaura Pereira, proprietária da casa filatélica Aurora da Silva Pereira, é comerciante em Cedofeita “há mais de 60 anos”. Lembra-se bem daquela casa de fotografia onde tantas vezes foi com o marido e os filhos. Era no tempo em que tirar um retrato “era um acontecimento”, vai dizendo. “Ia sempre ao cabeleireiro. A gente queria estar bonita.” Do número 93 tem fotos do filho, “com dois aninhos e amparado por coisas à volta para se segurar bem para a foto”. Guarda-as religiosamente, como às saudades desses tempos em que o relógio parecia mais lento. “Não havia estas coisas modernas. Agora é tudo à bombeiro”, lamenta.

 

Do outro lado da rua, João Mota, de uma casa de mobiliário, é também dos mais antigos comerciantes da rua. “Nasci aqui”, conta, “numa das casas onde agora é o Externato Académico”. Em frente à loja de fotografias, portanto. Recordações em miniatura guarda “muitas”. “Toda a gente ia lá”, assegura. “Fazia fotos pelos menos uma vez por ano, e era sempre ali.”

 

Não foi amigo dos prorietários, mas conhecia-os. “Cumprimentávamo-nos cordialmente. Lembro-me bem de ver fotografias minhas no corredor de entrada.” Margarida Vieira também tem vivo na memória esse corredor repleto de fotografias. Vai de trólei na mão, a caminho da Igreja Evangélica Baptista, da qual foi zeladora por mais de vinte anos, quando repara no ajuntamento na rua. “Era uma loja antiga, mas o que importava era que a foto ficava bonita.”

 

Na mesa da esplanada, Fernando Ramos já acabou de dar a volta ao álbum. Reconheceu o Amadeu, o Francisco e o Fernando, três amigos dos tempos de estudante. Agora, perde-se em telefonemas para tentar arranjar os contactos para o projecto À Sua Procura. Pau Storch vai ganhando ânimo. E em surdina deixa sair o pensamento feliz: “Foi para isto que comprei o livro.”

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