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Crónica

Para todos os casais do mundo

Isto não sou eu. Sou eu a fazer de conta ser alguém com a sorte de ter uma mulher que o ama, como eu tenho a sorte, mas ao mesmo tempo incapaz de ver o tempo a perder-se entre as mãos

Texto de João André Costa • 01/10/2017 - 10:33

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Meu amor, quando o Herman José, no seu humor (já reparaste como amor rima com humor?), dizia não ter tempo não estava a brincar, ao invés a criticar a quantidade estúpida de horas já perdidas longe um do outro, longe uns dos outros, dia após dia, ano após ano. Caminhamos para velhos, chegamos a velhos, e não só não nos conhecemos, não vivemos, um ao outro, um com o outro, um pelo outro, sempre distantes, sempre afanos, a produzir, a fazer, a executar, a cumprir, a correr (já aqui o disse) sem saber muito bem porquê nem para quê ou para quem, mas sem parar, a ordem é só uma e não se pode parar, das cinco da manhã às oito da noite e filhos nem vê-los, quanto mais querer, porque ele não consegue, ou assim dizem lá na rua a quem quer e não quer ouvir, quando vontade não falta, não de ter filhos, mas de ter, a ti, mais 60 segundos, só mais 60 segundos, todos os dias, mais seis horas ao fim de um ano, mais um dia, todo ele só contigo, de quatro em quatro anos, 24 horas seguidinhas de quatro em quatro anos como num ano bissexto sem dormir, respirar ou sequer pestanejar.

 

Porque o tempo, por pouco que seja, e é, só acontece, só nos acontece fruto dos sacrifícios, dos incêndios, as amizades queimadas, as famílias assassinadas a 2000 quilómetros de distância, mais ou menos o que nos separa quando chego a casa e descarrego em ti toda a fúria do mundo, a fúria de um Hulk que nunca cresceu, como se tivesses culpa da minha ignorância, da minha cobardia, desta estupidez, o cansaço, a cegueira de quem se passa quando o teu braço toca o meu e um prato sai disparado da mesa contra o quadro e o sofá e duas semanas sem falar, ou dormir, um com o outro.

 

Diz-me tu, quanto tempo mais passará até recuperarmos estas duas semanas? Mais estas duas semanas. Porquê, não me queres dizer, que te fiz eu, que fizeste tu? Porque não falas comigo? Porque não falas contigo? Que vida é esta quando prefiro não voltar para casa ao fim do dia? Faço uma pausa e respiro.

 

Isto não sou eu. Sou eu a fazer de conta ser alguém com a sorte de ter uma mulher que o ama, como eu tenho a sorte, mas ao mesmo tempo incapaz de ver o tempo a perder-se entre as mãos, incapaz de perceber que a exaustão, o desespero, é só meu, não teu, e tu não tens culpa.

 

Não sei. Talvez seja da idade. E eu não sou assim tão velho. Sim, os cabelos brancos. Mas não os vejo. Tenho um olho preguiçoso. E, no entanto, uma coisa é certa. O tempo que temos, o tempo que nos resta, é tão pouco, já é tão pouco, vais ver que um dia chega ao fim, por isso porquê chatearmo-nos, o mundo chega ao fim, o universo chega ao fim para nós os dois, e o frio, os lençóis da cama frios, a cama fria de mim ou de ti perdida algures entre os restos dos anéis de Saturno, e nem sinal do outro, nem mais um abraço, uma palavra ou um beijo. O Sol que vem para nos engolir. Nem sequer vamos sentir nada.

 

Chego a casa e abro a porta. Daqui a uma hora já se dorme mais um dia. Tomo um banho e, apresentável e cheiroso, dou-te um beijo, abraço-te, seguro-te entre os braços, não te deixo cair. Olá outra vez, nunca saí daqui. O Sol vem para nos engolir. Não vais sentir nada. Eu não deixo.

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