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Crónica

Avó, arquitecta

Dizem que a democracia é aquilo que permite que o neto de quem não andou na escola frequente um curso universitário. Não sei o que a minha avó pensa, mas suspeito que para ela a democracia é o que permite que no trabalho do neto caiba o mundo e a sociedade que ela sempre desejou para os outros

Texto de Aitor Varea Oro • 02/10/2017 - 10:43

Aitor Varea Oro
Arquitecto. Coordenador do programa Habitar Porto

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Durante vários anos, eu e o meu irmão mais novo dividíamos quarto e acordávamos ao mesmo tempo quando, ao chegar à nossa casa, a minha avó nos dedicava as primeiras palavras do dia. “¡Buenos días, Don Matias! ¿Ha comido usted judías? ¿Calientes o frias?”, cantava ela enquanto abria as persianas. Acordávamos com sono, mas com alegria. Meio zonzos, a avó guiava-nos no processo de lavar os dentes, vestir a roupa, preparar a mochila, tomar o pequeno-almoço e ir para a escola. Bem disposta, aproveitava o trajecto para fazer terapia da fala caseira ao neto mais velho.

 

O que não era visível era que aquela energia dela, que para nós era tão natural, lhe exigia um esforço que investia com a maior convicção de que uma pessoa é capaz. Desde muito nova, a minha avó descobriu que a vida não era para se viver mas para se construir. Nasceu em 1936 (o ano em que começou a Guerra Civil espanhola), calhou no bando errado (o que perdeu), no lugar menos favorável (uma região do interior nunca industrializada) e numa família difícil (que esperava dos filhos a reprodução daquilo que os pais tinham herdado dos avós). As coisas nunca foram fáceis.

 

Casou-se e, com o meu avô, partiu para Valência, terra mais rica onde não conheciam ninguém. Ele, pastor, armou-se em operário numa fábrica de cimento; ela, mulher, limpou casas. Aguentaram a ditadura, trabalharam sem nunca saber o que eram direitos laborais. Construíram a vida à volta da convicção de que a dignidade não consistia em ter, mas em não esquecer que outros não tinham. Com a morte de Franco, chegou o progresso e os filhos, que estudaram, tornaram-se enfermeiros e se casaram com enfermeiros. De maneira fluída, os conceitos “cuidado” e “serviço público” começaram a ser frequentes no ambiente onde eu e o Pablo nascemos.

 

O mundo, entretanto, tinha mudado. A democracia trouxe dinheiro, expectativas e pressas. O território evoluiu rapidamente e, com a sua construção, moldaram-se as mentes a ideias que os meus avós nunca imaginaram. O crescimento urbano, o metro, edifícios, equipamentos. A possibilidade de viajar, de aprender línguas, de conhecer outras culturas sem sair de casa. A probabilidade de andar na universidade sem necessidade de trabalhar. Nascia a geração mais preparada da história, numa globalização que aproximava as ideias mas afastava as pessoas da sua construção.

 

Escolher, finalmente, era fácil. O destino natural era que fosse médico, mas fui para arquitectura apesar de desejar ser jornalista. Na faculdade fui bom estudante, o que paradoxalmente me fez entrar em crise. O que se avaliava não era o potencial do aluno, mas a sua capacidade de reproduzir ideias já consolidadas. O progresso profissional estava associado ao status social, mas os dois estavam desligados do desenvolvimento colectivo. A faculdade não se pergunta o "para quê" e "para quem" das coisas. Mal terminei o curso, percebi que não podia fazer parte disso. A crise económica confirmou que estava certo.

 

Resolvi dar um passo atrás. Abandonar o trabalho na faculdade, fazer uma tese sem bolsa para não responder a outros interesses que não os meus. Agir com o mínimo. No processo, comecei a trabalhar com as populações, em territórios onde o progresso não chegava. Finalmente, entendi o que nunca tinha percebido como estudante: por que é que onde eu via progressos teóricos a minha avó só via maquetes? As formas construídas respondiam a necessidades formuladas por gente de que ela não gostava. O progresso por elas afirmado visava anestesiar consciências, não acordá-las. A construção servia para que ganhassem dinheiro os mesmos de sempre, à custa dos do costume.

 

Enquanto escrevo estas linhas, estou no avião, rumo ao Porto. Hoje de manhã fui eu que acordei a minha avó, para lhe dar um beijinho antes de abandonar Valência. Tão velha, tão bela, tão digna na sua idade tão avançada como sempre foi o seu pensamento. Pergunto-me: qual é a importância de uma pessoa como ela para o país em que nasceu e que entretanto viu mudar? Dizem que a democracia é aquilo que permite que o neto de quem não andou na escola frequente um curso universitário. Não sei o que a minha avó pensa, mas suspeito que para ela a democracia é o que permite que no trabalho do neto caiba o mundo e a sociedade que ela sempre desejou para os outros.

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