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Crónica

Sim, continuo solteira!

Ou és uma perigosa amante das festas e dos prazeres mundanos ou és uma triste tia relegada ao conforto do sofá. De qualquer maneira, não podes ser feliz. Porque a fórmula da felicidade está no casamento e nos filhos

Texto de Estefânia Barroso • 28/09/2017 - 09:43

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“Sim, continuo solteira!” — esta será uma das frases que mais utilizei ao longo dos anos. Nos encontros de família, nos reencontros de amigos que não se viam há muito e até nas conversas com pessoas que conheci há pouco tempo. Inevitavelmente, no decorrer destes momentos sociais, vinha a mesma pergunta mascarada de formas diferentes. Desde a forma mais directa “Então, ainda não casaste?”, à forma mais discreta “Então, ainda não arranjaste tempo para uma pessoa nessa tua vida ocupada?”, à forma mais galante (e ligeiramente patética) “Como é que uma miúda como tu continua sozinha?”. E é verdade, contra tudo e contra todos, continuo solteira. Porquê? Vejamos…

 

Analisando a situação:

A primeira ideia que ocorre na mente das pessoas é que, se já és uma mulher feita (digamos, se passaste dos 30…e eu já passei há mais de uma década), só podes interpretar na sociedade um de dois papéis: ou és uma “tia solteirona” que não sai de casa, vive a sua vida através das histórias de amor a que assiste na televisão, tem um gato com quem conversa e continua a sonhar com o amor da sua vida enquanto, noite atrás de noite, fica em casa com o seu chá quente e com os pés frios. Ou então, e se tiveres uma imagem, na tua forma de vestir e apresentar, que não se coadune com essa teoria da “tia solteirona”, serás a segunda opção: a louca que faz festa todos os dias, que não tem namorado porque não acredita no amor mas acredita, e bem, nos prazeres físicos, que adora comer e ainda mais beber e por isso tudo não é companhia aconselhável para as amigas casadas porque as poderá enlouquecer com os seus hábitos poucos recomendáveis! Quando muito, poderá ser companhia para as amigas divorciadas que, de algum modo, sofrem do mesmo estigma.

 

E é com estes rótulos que tens que viver, apenas porque escolheste viver a tua vida de uma forma diferente daquela que é socialmente aceite pela sociedade. Não lhes passa pela cabeça que podes não ser nem uma coisa, nem outra. De facto, não sou a tia solteirona que fica em casa a ver as novelas. Mas também não sou a louca pintada na segunda opção. Apenas sou uma mulher que até ao momento decidiu não partilhar a sua vida com ninguém porque não encontrou ninguém com quem quisesse ou lhe fosse possível partilhar a sua vida. Serei assim tão diferente da maioria das pessoas? Ou apenas serei exigente demais? Assumo que, como já escrevi noutra crónica, acredito que existe uma alma gémea à nossa espera no mundo. Mas também referi que nem sempre a alma gémea vem no corpo ou nas circunstâncias certas. E só me faz sentido partilhar a minha vida com uma pessoa que eu considere ter sido colocada no mundo para se encontrar comigo, uma pessoa com quem partilhe uma energia especial, uma pessoa que me faça pensar que serei mais feliz estando com ela do que estando sozinha, uma pessoa que terá aparecido nas circunstâncias certas. No fundo, só me faz sentido partilhar a minha vida com aquela que identificaria como a minha alma gémea.

 

Não irei negar que pensei muito sobre o facto de ver passar os anos e sobre o facto de não encontrar uma pessoa com quem quisesse ou pudesse partilhar o meu mundo. Pensei sobre a questão do casamento, do viver junto, da urgência que a sociedade impõe em resolver essas questões a partir dos 25/30 anos. E, para falar verdade, passei, também, a procurar conhecer-me e analisar-me, procurando compreender-me e perceber por que raio não seguia o caminho socialmente aceite.

 

Foi aí que percebi que desde pequenos nos vendem a ideia de que a felicidade só vem a dois, em casal e, de preferência, com filhos. Compreendi que estamos habituados a viver no barulho e na confusão. Compreendi que “ser sozinho” é, por isto, visto de modo negativo. Compreendi que o silêncio assusta. Compreendi que criaram em nós a ideia de que precisamos estar sempre acompanhados. Mais! Criaram em nós a ideia de que não somos completos a não ser quando temos ao nosso lado um “mais que tudo”. Por isso, quando segues um caminho diferente desse socialmente aceite, tens de ser rotulada. Ou és uma perigosa amante das festas e dos prazeres mundanos ou és uma triste tia relegada ao conforto do sofá. De qualquer maneira, não podes ser feliz. Porque a fórmula da felicidade está no casamento e nos filhos.

 

Nada mais errado, digo eu. Com o tempo percebi que só se encontra a paz e a harmonia, o silêncio, dentro de si próprio. Percebi que não se pode ter medo de estar sozinho. Estar com outra pessoa tem de ser uma escolha e não uma necessidade. Só assim poderemos ser uma boa companhia para o outro. Só assim poderemos dar o tempo que for necessário para encontrar a pessoa que se julga ser a certa… ou não a encontrar de todo e, ainda assim, ser feliz e completa.

 

Concluindo: só depois de gostarmos da nossa própria companhia é que “outro alguém” poderá, também ele, apreciá-la. Gosto da minha companhia. Gosto de estar no meu silêncio, como gosto de do barulho por estar com amigos, em família, ou numa qualquer festa ou celebração. Continuo a acreditar em almas gémeas. Continuo a acreditar no amor. E sei que apenas deixarei de ser solteira porque encontrei alguém com quem sinto vontade de partilhar os meus silêncios. E não porque a sociedade assim me impôs.

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