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Crónica

Enfermeiros e fisioterapeutas: uma greve, um manifesto

Esperam os enfermeiros que outros profissionais de saúde os apoiem na presente greve. Os enfermeiros querem substituir os outros profissionais

Texto de Luís Coelho • 14/09/2017 - 13:31

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"Os Fisioterapêutas são filhos de um aborto das Enfermeiras do Alcoitão que trouxeram das Américas a especialidade de reabilitação, para Portugal.
 Não têm a principal caracteristica dos Enfermeiros, que é a globalidade dos cuidados e holismo nas sinergias da profissão" (sic). Cito, incluindo erros ortográficos, a partir do blogue O Sindicalista, do, nada mais nada menos do que, presidente do Sindicato dos Enfermeiros. Aceitável? Pelos vistos é, pois nenhum enfermeiro se insurge contra isto.

 

Esperam os enfermeiros que outros profissionais de saúde os apoiem na presente greve. Porque a greve não é uma questão de poder; é uma questão de justiça básica. E está em jogo a afirmação de um modelo de saúde que se contraponha ao "biomédico", do qual os enfermeiros se afirmam donos e senhores, mas que seria, supostamente, apanágio dos profissionais de saúde não-médicos.

 

Seria e é. Porque as profissões de saúde não-médicas tiveram, no passado, uma necessidade fundamental de asseveração de um modelo menos "mecânico", mais "bio-psico-social", que permitisse cobrir uma parte mais substancial do sistema em que o paciente se inclui. E é, em grande medida, com base nesta diferença paradigmática que os profissionais não-médicos pretendem firmar a sua autonomia e a justiça de um ganho adequado a uma formação superior e, até, especializada, e de uma responsabilidade acrescida. É justa a pretensão? Na verdade, é. E eu nunca deixei de apoiar a greve dos enfermeiros. Nunca deixei de defender a importância do seu reconhecimento.

 

E, em tempos, já fisioterapeuta formado, cheguei a advogar a existência do "enfermeiro" enquanto profissional "raiz" do sistema de saúde, no qual mergulharia parte significativa da holisticidade dos modelos. O objecto "totalizador" do sistema "paciente" implica, de algum modo, esse "demiurgo", esse "filósofo-Rei" (Platão). E o enfermeiro parecia ser o candidato ideal de um ilhéu utópico. Quando o pensava, esquecia-me da tentação de todo o poder. É que a "ego-teo-mania" é uma consequência quase inexorável, sobretudo entre os que, tantas vezes, foram frustrados. E, pior, firmado o novo domínio, o poder "dogmático" chega a imiscuir o pior do dogma "ideal" com o pior do dogma "liberal", capitalista; e é aqui que o enfermeiro se terá tornado o novo "médico", e a holisticidade certifica a potência unidireccional "prescritiva" do profissional sobre o paciente.

 

Sim, na saúde, tudo é poder (vide Foucault), não se enganem. Sim, o paciente é a parte mais fraca do sistema. Sim, muito se erra em saúde, o corpo possui processos ambíguos, ainda não é tempo de firmar a ditadura de um profissional uno. Talvez até nem seja o momento de marcar o direito "apriorístico" do exercício e ganho de cada profissional. Talvez até fosse mais sensato "liberalizar" o sistema, colocando no "paciente", no resultado "positivo" (para o qual tanto contribuiria a "verdade" "biomecânica" quanto o "placebo" dialéctico da intervenção/relação), a "decisão" do vencimento de cada um.

 

Quiçá, os métodos genuinamente holísticos singrassem mais, mesmo a curto prazo. Mas que métodos são estes? É que, no tempo corrente, a holisticidade é cada vez mais uma caricatura, a "singularidade" perde crescentemente para a ciência "pura e dura" do empiricismo desabrido e, até, irracional. Alguns episódios são, até, risíveis. Lembro a imagem de um enfermeiro de reabilitação a "manipular" um membro, dizendo que vê o "todo". Ora, o "todo" é saber de que modo essa manipulação prejudica a vida familiar do paciente, ao ponto de afectar a doença da parceira, atrasando em dois segundos o que podia ser a salvação de um ente na rua.

 

O "todo" é saber fundir, com sabedoria, o toque certo no instante infinitesimalmente redutível, cerceando ciência e arte, ao ponto de fazer verter a lágrima salvífica de um universo. No momento seguinte, a chave é outra, a ciência ainda é lesta em mostrar o alvo perfeito, o tiro mais eficaz (e cada um deles é ciência "dialéctica" a querer findar sua perfeição logicizável). O "todo" é adaptar constantemente a voz, a acção, sabendo que a manipulação de uma parte pode provocar o ciclone no outro lado do mundo. E a ciência é prever, controlar, e até realizar, o ciclone.

 

Alguns fisioterapeutas sabem que, alongando uma parte do corpo, é possível reestruturar uma escoliose ou tratar a dor de um dente. A enfermagem também contém o seu "todo", mas a sua citada superioridade "holística" não é uma "exclusividade". E, doa a quem doer, este é ainda o tempo da multiplicidade, no qual só pode caber a proficiência de uma equipa. O enfermeiro não é um inimigo. Os outros profissionais também não são. Nem sequer o são dos pacientes. Claro, o animalismo egóico fala mais alto, mas há que saber contê-lo na devida proporção. Ganhos que chegam aos cem por cento é pura aleivosia. Farão disparar os custos dos serviços, sobrecarregando ainda mais os profissionais. Acréscimos de cinquenta por cento seriam mais sensatos. Os enfermeiros conseguiram pôr a opinião pública contra eles. Esta opinião pública é o nosso alvo "terapêutico", do cuidar. Como cuidar de quem se descuida?

 

Os enfermeiros querem substituir os outros profissionais. Lembremos o caso da Circular Normativa (vide o artigo intitulado "Serão Super-Homens", do PÚBLICO de dia 26/06/2013, que acabou por não singrar. Ninguém, no entanto, os pretende substituir. Na comunicação social, há quem afirme ganharem os "técnicos de diagnóstico e terapêutica" mais do que os enfermeiros, o que não é verdade; ganham, na realidade, menos. Eu, que me estou borrifando para ganhos.

 

Desejo, não obstante, que a greve dos enfermeiros singre, mas que não seja à custa da abertura de um revés que sombreia a saúde portuguesa, o "totalitarismo" de uma nova profissão. Também eu tenho, ou já tive, posição (vide o artigo "Enfermagem de Reabilitação e Fisioterapia: perceção de uma ameaça")? Sim, é infelizmente o mal do "humano". Daí que o terreno da liberdade concorrencial pareça muitas vezes o mais fértil na resolução do "absurdo" (Camus) do sofrimento. O totalitarismo da liberdade pelo totalitarismo de quem sofre, mas sem que soçobre quem sofra fazendo sofrer (os enfermeiros incluídos).

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