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Crónica

Dr. enfermeiro

Há sempre alarido quando uma das profissões de saúde faz greve. Somos todos uns sádicos gananciosos — já se sabe

Texto de Raquel Correia • 12/09/2017 - 16:14

Raquel Correia
Raquel Correia é médica, copywriter, intrinsecamente curiosa e quase sempre sarcástica

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Antes de mais, a ti, caro hipócrita, que andas a tentar criar atritos entre médicos e enfermeiros, desejo-te uma longa e demorada colonoscopia sem anestesia. Estou grisalha de te ver descontextualizar e tentar pôr-nos à pancada.

 

Tenho pena de não te poder censurar. A ti, e aos teus textos presunçosos, cheios de palavras caras e alusões a filósofos de bidé. Se queres usar palavras como arma de arremesso, sê simples e inteligente. Elucida-me, em vez de me confundires.

 

Estragas-me a dieta com os teus generosos argumentos: os enfermeiros querem ganhar mais, os enfermeiros especialistas querem ser médicos, os enfermeiros são profissionais holísticos. Holística é a tua burrice!

 

Não vês que na saúde ninguém trabalha sozinho? Qualquer médico sabe que ter enfermeiros competentes na equipa é essencial. Assim como é essencial ter auxiliares, administrativos, assistentes sociais e mais um par de botas. Somos equipas multidisciplinares, ponto.

 

Importa perceber que o dinheiro é uma ínfima parte do que nos aflige. Falta sobretudo ser reconhecido, ter tempo e ser respeitado. Faltam oportunidades de formação e organização adequada. Não somos máquinas, ainda que nos queiram assim pintar. Como é que, em 2017, com tecnologia ímpar, sistemas informáticos fora de série e um quinquagésimo iPhone a sair do forno, trabalhamos mais do que nunca, ganhamos menos e pintamos as raízes mais vezes? Faz algum sentido?

 

E, já agora, que trafulhice é essa de uma pessoa investir numa especialização e depois ser má vontade não querer fazer trabalho especializado pelo mesmo preço? Se em casa quero impressionar as visitas com um serviço de porcelana, não vou à Vista Alegre perguntar se não se importam de mo vender a preço de talheres de plástico.

 

Ao contrário do que nos tentam impingir certos artigos, os valores dos profissionais de saúde não estão em saldos. Eu levanto-me todos os dias com a noção de ter uma missão, ainda que esta seja desempenhada no meio de gritos de dor, camas rangedoras e burocracias obscenas. Sei que nada é mais valioso do que a gratidão que sinto quando tenho a sensação de dever cumprido. O que faço e o que os meus colegas fazem — sejam eles médicos ou enfermeiros — é pelos doentes.

 

Esta greve não é — infelizmente — um problema isolado de uma classe profissional. Esta greve, e todas as outras que se vão seguir, é um reflexo do estado actual do Sistema Nacional de Saúde: frígido, insalubre, e a precisar de reanimação. Foram muitos anos na cama com políticas da tanga. Palpita-me que, tal como eu não reanimo um doente sozinha, o sistema também não vai entesar só com a sensualidade de uma classe. Dizia a bastonária dos enfermeiros que urge acção. Eu acho que urge coito.

 

Isto é hora de orgia arrebatadora e fogosa. Médicos, enfermeiros, e outros profissionais de saúde: vai ter de haver aqui alguma promiscuidade e nudismo. Despirmo-nos dos preconceitos — tantas vezes parvos — que nos separam e lutar por uma causa comum. Tentar — desculpem, não posso usar o verbo — f_ _ _ _ o sistema.

 

Trabalhamos todos, todos os dias, a menos de um palmo de distância. Podemos ser consistentes e lutar juntos por algo que todos queremos? Um sistema de saúde tesudo? Depois, quando ele tiver voltado a ser firme e hirto, e estiver naquela pausa do cigarro pós-coito, podemos voltar às nossas guerrinhas tolas. Prometo. 

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