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Crónica

A tragédia e os enfermeiros

Greve é sinonimo de paralisação e, se os enfermeiros fazem greve, o significado é paralisar todo o seu trabalho. Se tal inclui comprometer alguns serviços (não urgentes, note-se), estes serão comprometidos. É o bê-à-bá da sociedade civil

Texto de Luís Sousa • 11/09/2017 - 14:40

Luís Sousa
Luís Sousa é licenciado em Comunicação Audiovisual e pertença a uma geração que tanto tem de crítica como de criativa

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A questão das greves é algo já bastante debatido e tido em conta no actual mercado de trabalho. É um direito que assiste a qualquer trabalhador, desde que previsto e organizado devidamente. Em Portugal, a primeira greve data de cerca de 1849. Posteriormente, já com as instituições sindicais — UGT e CGTP —, as greves foram-se multiplicando em diferentes sectores, abrigando objectivos bastantes distintos.

 

É também de conhecimento geral, e para já em sentido muito lato, que a cessação de serviços não poderá ser algo munido de qualquer leviandade, nem sentido vingativo — deverá, sim, funcionar como uma chamada de atenção para uma complicada situação. Ultimamente, várias greves têm assolado o nosso país. No entanto existem classes que, usufruindo deste direito, poderão paralisar totalmente um sector, transformando os dias seguintes em autênticos filmes de terror.

 

É este o grande problema e o porquê de ser tão complicado de engolir para alguns dos nossos responsáveis governamentais. Senão, vejamos: há semanas que nos deparamos com ameaças e braços de ferro entre uma classe profissional com um número alargado de trabalhadores — os enfermeiros — e o responsável que rege todos estes empregos — o Ministro da Saúde. Se, anteriormente, falámos de filmes de terror, podemos recuar milhares de anos e introduzir a tão célebre tragédia grega.

 

A verdade é que toda esta história tiraria horas de trabalho a Sofócles ou Eurípides. Poderá parecer uma comparação um pouco rebuscada, porém, se a tragédia era indispensável para a Grécia Antiga, também os cuidados de saúde revelam-se fundamentais para a sociedade actual. Poderemos, então, dividir toda esta narrativa, tal como fosse uma verdadeira obra ancestral.

 

Iniciaríamos com o Prólogo, de seguida interpretaríamos o Episódio e terminaríamos com o Êxodo. O Prólogo desta tragédia é, sem dúvida, compreender o porquê desta greve. A enfermagem, como diversas outra profissões, obedece a divisões úteis e pertinentes, denominadas de especialidades. É neste ponto que reside o grande problema. Como factor determinante no trabalho desenvolvido, são as especialidades que, como o nome indica, necessitam de especialistas.

 

São estes profissionais os indicados e com competências definidas para os diferenciados actos clínicos. Com a chegada da crise a Portugal, é sabido que o cinto foi apertado ao máximo e muitos dos direitos foram obrigatoriamente cessados. A evolução natural da economia internacional, levou o pais a regulamentar diversos elementos ultrapassados. Porém, é neste ponto que os enfermeiros batem com o punho na mesa, na tentativa de não serem esquecidos. E qual a melhor forma de chamar a atenção para o seu problema? Exactamente, a greve!

 

Chegámos então ao Episódio desta tragédia. A greve é um direito de um qualquer trabalhador. Porém, o dramatismo desta narrativa reside na sua tentativa de boicote. É impossível haver tragédia sem Episódio, tal como é inviável reclamar uma situação sem a gritar em plenos pulmões. Greve é sinonimo de paralisação e, se os enfermeiros fazem greve, o significado é paralisar todo o seu trabalho. Se tal inclui comprometer alguns serviços (não urgentes, note-se), estes serão comprometidos. É o bê-à-bá da sociedade civil.

 

A dúvida não deveria ser nenhuma. Não seria necessário qualquer explicação nem tampouco esta grande azáfama a que assistimos. Toda esta capacidade dramática, como sempre, percorre a existência de dois pólos. Neste caso, seria de esperar de um lado a classe trabalhadora e, do outro, o Governo. Acontece que, como em todas e quaisquer tragédias, o coro é introduzido a certa altura da trama. A este coro dá-se o nome de médicos. Talvez fosse desnecessária tal inclusão, no entanto, bem como na Grécia Antiga, em Portugal, vivemos em plena liberdade de expressão. É sabido que uma das características do coro é a sua inexistente interferência na acção, apenas serve para comentar a cena.

 

Os médicos, por seu turno, poderiam usufruir, como todos os trabalhadores, dos seus direitos. Acontece que nada disto está assegurado, não quando um dos actores primordiais de todo este coro, o Bastonário da Ordem dos Médicos, incita à intervenção de toda a classe numa guerra, numa acção, numa cena, que não é a sua. Explicado todo este episódio, dever-se-ia dar inicio ao tão aguardado Êxodo ou desfecho de toda a tragédia.

 

Tendo em conta que a palavra Êxodo tem como seu sinónimo o termo fuga, tal já aconteceu. Será por puro acaso que os enfermeiros já deram início a esta etapa, ao entregarem as suas cédulas? Irá o desfecho seguir os trâmites já previstos na Grécia Antiga, ou será que vamos defraudar Aristóteles e os seus compinchas e finamente introduzir a palavra igualdade no nosso dicionário da evolução social?

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