Marco Gil

Crónica

Dois mundos no mesmo espaço

O certo e o errado são quase a mesma coisa e as coordenadas nunca conhecem o mesmo destino se não se sentirmos da mesma forma

Texto de Marco Gil • 10/09/2017 - 14:17

Marco Gil
Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

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"Vamos apenas beber um copo, mas eu só queria sentir-lhe aquele perfume doce e a respiração ofegante porque, mais uma vez, chegará atrasada.

 

E chegou, olhou para mim e senti o mesmo que sinto desde que nos vimos pelo primeiro dia.

 

A vontade de a abraçar é galopante. O meu coração parece um cavalo de corridas perto da meta. Gaguejo antes das primeiras palavras, até me sentir confortável.

 

Ela faz-me ser eu, sem pretéritos, sem rodeios. Sem ter que ser outro para ser novamente eu próprio. Dispensa o galanteio comum e só costuma trazer a expressão que eu costumo abrir em sorrisos ou gargalhadas.

 

Quero sempre dar-lhe o abraço que ela se esquece sempre de dar ou beijá-la antes do depois, porque já o imaginava antes de tudo, antes de querer o que quer que seja.

 

Hoje ela chegou depois das 20h, traz um guarda-chuva da cor do vestido, estou sempre atento aos detalhes; e o cabelo molhado foi porque, de tão despistada que é, nem reparou que metade dela vinha a apanhar chuva.

 

Olhou para mim como nunca tinha olhado, os olhos franziram ao mesmo tempo que a boca desenhava palavras que eu ainda não ouvia.

 

Percebi que era hoje que passaríamos do casual ao único. A intensidade manteve-se ao longo da noite toda. O diálogo era nutrido pela vontade que lhe sentia, pela forma subentendida que se expressava.

 

Finalmente lhe sentia paixão, como nunca antes acontecera.

 

Foi antes de ela me passar as mãos pelas minhas que eu pensei que seria esta noite que a levaria a casa. Que seria eu a ampará-la da chuva num abraço que ela hoje desejava tanto como eu. Hoje era o dia.

 

Fui pagar, enquanto ela esperava, passei pela casa de banho e penteei-me como o James Dean, antes de me ir inspirar na confiança de Bond, durante aquele tempo em que me via no espelho.

 

Quando cheguei perto dela, pude sentir-lhe a firmeza das mãos que me puxavam dali para fora. Deixei-me levar, como sempre, mas desta vez foi o coração dela que nos traçou o rumo."

 

"Caramba, escorreguei novamente, fiquei encharcada, estes guarda-chuvas dos chineses também não protegem nada. Não consegui dizer-lhe que não, nunca consigo. E ainda por cima chove a potes.

 

O bar é sempre o mesmo e estou com tamanha fome que aposto que nem há lá nada para comer.

 

Espero que não perceba que vim directa do trabalho e que peguei num guarda-chuva qualquer que estava na recepção, mas não estava para ir a casa mudar de roupa.

 

Vou ligar-lhe para que venha à porta buscar-me.

 

Lá está ele, ao menos trocou o pólo desta vez. Mau, mas que tem ele de diferente hoje? Fez as sobrancelhas, nem posso crer, está ridículo.

 

E o pior é que não consigo parar de olhar, pensava que esta moda do metrossexual arrojado ainda não tinha chegado cá.

 

Vou dizer-lhe ou continuo a olhar feita parva? Ah, digo-lhe e ainda nos rimos com isto.

 

O Manuel está a passar atrás dele, vou esquecer por agora as sobrancelhas. Há mais de dez anos que não o via, que faz ele por aqui? Continua bonito, preciso de saber o ginásio que frequenta, sim, porque nota-se que faz ginásio.

 

Olhou para mim? Será que ainda me reconhece? Vou é sair daqui antes que me veja nestas figuras, nem a roupa do trabalho mudei e devo estar um 'caco'.

 

É só comer isto que estou morta de fome e peço-lhe que me deixe em casa.

 

Que fizeste às mãos…? Também andaste a limar as unhas? Não me contive e tive que lhe dizer.

 

Mas que raio se passa com este gajo, quando o conheci não era assim. Agora anda todo 'aprumadinho'; se calhar 'virou'. Nunca me tentou tocar, não me admirava. E está ao tempo na casa de banho e eu 'deserta' para me ir embora antes que o Manuel me veja. Não sei como consegue fazer estas coisas no WC de um bar.

 

Ah, já lá vem, vou pegar-lhe na mão e arrastar-nos daqui para fora, porque se ele se senta já ninguém o cala outra vez. E eu já só quero um sofá, pés quentes e tv.

 

Mas que raio fizeste ao cabelo?"

 

São a mesma realidade. Mas podem ser várias ao mesmo tempo se as partilharmos e os sentimentos não se encontrarem em sintonia. O vazio pode ser cheio e o mar ter o cheiro da montanha.

 

São pedaços da mesma história construída a dois, mas desalinhada pelo desencontro do coração.

 

Por uma morada onde os habitantes não são os mesmos ainda que convivendo. Pelos mesmos cheiros, pelas mesmas expressões; mas por sensações diferentes. Porque nem todos subimos a um navio se acharmos que é um barco à vela. Pela chama que é totalmente diferente e pelos sabores que, ainda que não mudem em nada, são sentidos de forma distinta. Porque a menta pode ser morango e princípios de uns podem ser o fim de outros.

 

Porque na primeira bifurcação nem todos viramos à esquerda.

 

O certo e o errado são quase a mesma coisa e as coordenadas nunca conhecem o mesmo destino se não se sentirmos da mesma forma.

 

Por vezes devíamos falar com o coração, trocar ideias com o sentimento, escutar a alma e tudo começava a fazer mais sentido.

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