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Crónica

Quando a minha sobrinha subir as escadas

Mais uma vez não tive a coragem de dizer adeus, não quis dizer adeus e, cobardemente, arrumei tudo quanto pude, limpei tudo quanto pude e fugi tão depressa quanto pude para, outra e outra vez

Texto de João André Costa • 10/09/2017 - 10:49

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Quando hoje, ao fim da tarde, a minha sobrinha subir as escadas à nossa procura não nos encontrará. A porta, aberta como sempre, será um logro, uma cortina, por detrás da qual uma casa vazia, limpa e arrumada, esperará, agora e em silêncio, pelo regresso de quem não volta mais. Assim é o tamanho do tempo.

 

Quando hoje a minha sobrinha subir as escadas, nada mais terá senão o vazio das paredes, quartos e corredores, imaculadamente mobilados mas tão frios, sem um abraço, um afecto, um beijo, sem risos e gargalhadas, sem brincadeiras de capa e espada e fotografias em poses aventureiras no telefone da tia.

 

Quando a minha sobrinha subir as escadas, degrau a degrau, na esperança de uma fuga, uma descoberta ou travessura, chamará pelo tio e pela tia para, de seguida, calar-se para sempre entre a surpresa e a tristeza de quem, apesar dos poucos anos, percebe agora como chegou ao fim mais um Verão, azul.

 

E sim, a culpa é minha, mais uma vez não tive a coragem de dizer adeus, não quis dizer adeus e, cobardemente, arrumei tudo quanto pude, limpei tudo quanto pude e fugi tão depressa quanto pude para, outra e outra vez, sempre e ainda não é desta, partir para tão longe e até quando sem este abraço, sem este afago, sem este beijo, sem estas lágrimas a romper-me o rosto, a boca e os dentes, a encherem-me a boca e os dentes, e eu que grito outra vez.

 

E sim, todas as famílias têm um tio maluco. Sou eu.

 

Porque não, não quero passar por tudo outra vez, dizer adeus outra vez, e por isso parto sem olhar para trás, sem me desfazer numa última apanhada, ao invés brincando às escondidas, até que me descubras daqui por muitos meses à porta, entre a chuva e o frio, a fazer as vezes de Pai Natal.

 

E talvez um dia me consiga explicar, talvez um dia consiga apaziguar essa raiva que em ti deixo, esse silêncio que em ti deixo, essa obrigação de crescer mais depressa do que os outros, essa maldição quando chega ao fim mais um Verão.

 

Entretanto digo até já e também não disse adeus a mais ninguém, todos os amigos incluídos. Estamos só de passagem.

 

Quando hoje, ao cair da tarde, a minha sobrinha subir as escadas e não me encontrar para brincar às espadas, vou ficar para sempre com este sentimento de culpa e desculpa preso entre a garganta e o olhar.

 

Finalmente chegámos ao Natal, conseguimos o Natal, voámos pelo Natal, sobre o Natal. As malas já estão à porta e nós também e antes que eu consiga meter a chave na fechadura, bem devagarinho que já passa das 23 horas, a minha sobrinha, mais alta, abrirá rapidamente a porta e, com todo o amor do mundo, perdoar-me-á como apenas as crianças sabem perdoar, apenas e somente por estarmos de volta.

 

Um dia destes vens connosco.

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