Ricardo Silva/Arquivo

Crónica

Eu ando na rua e não sei quem são as pessoas à minha volta!

De acordo com o Rui, e os amigos do Rui, o melhor seria fechar as fronteiras, enchermo-nos de medo, plantar um, ou mais, polícias em cada esquina e acusar de incentivo à manifestação todos os grupos com mais de três pessoas

Texto de João André Costa • 22/08/2017 - 15:33

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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E então o Rui volta-se para mim e diz: "Eu ando na rua e não sei quem são as pessoas à minha volta!"

 

E eu: "Como assim, não sabes quem anda à tua volta? Pessoas!", respondi.

 

“Não”, continuou o Rui: "Eu ando na rua Augusta, onde há muita gente, e não há um único polícia! Como é que podemos andar em segurança se não sabemos quem anda à nossa volta?".

 

"Ó Rui, mas nós não podemos conhecer todos os portugueses!", exclamei.

 

"Sim, João, mas a probabilidade de o perigo vir de alguém de fora é muito maior do que se for um português."

 

Então e o que dizer de todos os portugueses lá fora, Rui? Acaso seremos nós uma fonte de perigo e preocupação nos países de acolhimento? De acordo com o Rui, sim, sendo que o mesmo se aplica a todos os que, não sendo portugueses, altos, brancos, loiros e de olhos azuis, deveriam voltar para os países de origem pois, a acontecer algo, e entenda-se por algo um atentado terrorista, então os culpados, os perpetradores, os responsáveis, os assassinos, os violadores, os terroristas, serão uns e apenas uns: os estrangeiros, os refugiados, os imigrantes. O Rui tem 20 anos e é trabalhador-estudante.

 

O Rui vive em Lisboa, mas ainda não deve ter percebido que Lisboa vive, de há alguns anos para cá, uma explosão no turismo, com todos os proveitos daí advindos para a economia nacional. De acordo com o Rui, e os amigos do Rui, o melhor seria fechar as fronteiras, enchermo-nos de medo, plantar um, ou mais, polícias em cada esquina e acusar de incentivo à manifestação todos os grupos com mais de três pessoas. De acordo com o Rui, todos os actos suspeitos devem ser denunciados, cabendo a cada um de nós a responsabilidade de vigiar todos os que nos rodeiam. De acordo com o Rui, estaríamos melhor no tempo da outra senhora, mesmo sabendo o Rui como a outra senhora já havia perecido há quase três décadas quando o Rui nasceu.

 

Mas nunca é tarde demais, pois não, Rui? Infelizmente, é sempre possível voltar atrás. Por isso é que o Rui quer correr com todos os não portugueses, com todos os ditos “estrangeiros”, a começar pelos muçulmanos, os quais, só por acaso, são cerca de 50 mil em Portugal, com uma presença constante desde os anos 50 (fruto da imigração das antigas colónias), tão portugueses como qualquer um de nós e nem por isso imigrantes, refugiados ou terroristas. Infelizmente, o Rui não concorda comigo. Nem o Rui, nem os amigos do Rui, todos 20 anos mais novos e concomitantemente ignorantes das responsabilidades primárias do Ocidente no petróleo do Iraque, Síria e Venezuela, ou não tivessem os mesmos pouco mais de cinco anos aquando do começo da presente chacina, à data numa certa conferência, numa certa base aérea norte-americana, numa certa ilha dos Açores, sob um certo alto patrocínio português.

 

O mesmo patrocínio que agora, face a face com o contraditório do terrorismo, foge do sorriso do medo na expressão de todos os que nos olham na rua.

 

Por isso é que o Rui, e os seus amigos, vão deixar de sair à rua.

 

Fizéssemos todos o mesmo e a derrota da liberdade, a nossa liberdade, seria certa.

 

Muito provavelmente vou deixar de ver o Rui por uns tempos. Ainda bem. Entrentanto, e a pedido do Rui, já colocaram umas barreiras na rua Augusta. Resta agora saber como vão a polícia e os bombeiros aceder à mesma…

 

Portanto, os meus parabéns ao Rui, aos amigos do Rui e a todos os representantes da sua geração: por mim, fiquem todos em casa. Farto de gente estúpida estou eu.

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