ANDRIK, LANGFIELD, PETRIDES/Unsplash

Crónica

Doentes insanos

Entende que, se os médicos fazem greve e começam a mandar sinais de fumo que andam a perder o parafuso, alguma coisa se passa

Texto de Raquel Correia • 21/08/2017 - 16:27

Raquel Correia é médica, copywriter, intrinsecamente curiosa e quase sempre sarcástica

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Opacos e intolerantes, sentados na sala de espera a mandar bocas, ou escondidos nas redes sociais a comentar com ódio todas as notícias relacionadas com médicos, eles andam aí.

  

Já vou avisando — e não vais gostar — mas és provavelmente um mau doente. Ora diz-me, como completas a frase “o meu médico é…” ? Aposto que com: “um sacana ganacioso…”, “um nabo arrogante…”, “um atraso de vida…”, “um privilegiado…”, ”(suspira) uma pouca vergonha!”. Soa-te familiar?

 

És indecente. Sentas-te na sala de espera a mandar bocas a médicos, enfermeiros, e auxiliares. Que charme! Até parece que andamos no serviço ou nas urgências a tomar café de palhinha, a depilar o peitoral do chefe com pinça ou a barrar as miudezas com óleo de amêndoas doces.

 

Diz-me, vais ao médico com o diagnóstico — pensas tu — feito? Entras a matar “- Doutor, venho porque tenho isto, quero fazer estes exames e preciso desta lista de medicamentos”? Impressiona-me a tua negligência. Sem te dares conta, pões em causa a tua saúde. Ou vais dizer-me que fazes isso em todo o lado? No restaurante vais à cozinha explicar como apurar o pitéu; cortas o cabelo, mas dás palpites sobre como dar a melhor tesourada. Na loja do cidadão, instruis os funcionários sobre onde clicar para imprimir o formulário. Hum… Não me parece, seu atrevidão.

 

Dizia o bastonário que a profissão de médico deveria ser considerada de alto risco. Deve. Como deve qualquer profissão que não seja imune à má educação, ameaças sussuradas e a insultos tórridos.

 

Deixa de ser mole, seu revoltado de bancada! Pagas impostos como eu, votas como eu, então, tal como eu, tens o dever de te bateres por um Serviço Nacional de Saúde que seja, no mínimo, a bomba! Um sistema com brio, que nos arrebate de orgulho, que seja uma coisa a menos para uma pessoa se preocupar. Afinal, com saúde, tudo se consegue, ou não?

 

A relação médico-doente é feita de uma intimidade exótica e digna que já pouco se vê. Conserva-a. Sê esperto. Mantém algum decoro. Deixa-te desses ares de fidalgo do Google. Questiona, discute, sugere, mas com humildade e inteligência. Sem snobismo ou autoridade.

 

O médico é um tipo como tu. Não consegue passar sem comer, dormir e perder uma ou outra gotinha. Tal como tu não vais ser melhor doente se eu alçar a voz ou puser a mão nos quadris enquanto te digo pela enésima vez que tens de deixar de fumar, o médico não vai ser melhor ou mais expedito porque o insultaste ou porque lhe arregalaste os olhos no corredor.

 

Repara que contudo somos parecidos. Ambos esperamos que o árbitro não esteja comprado, que o cozinheiro tenha lavado as mãos na pausa da retrete e que o polícia sinaleiro não seja daltónico. Para poder fazer um bom trabalho, ambos precisamos de saúde, energia, bom ambiente e, se possível, barriga cheia e horas de sono em dia.

 

Entende que, se os médicos fazem greve e começam a mandar sinais de fumo que andam a perder o parafuso, alguma coisa se passa. Não bate a bota com a perdigota. Bem sei que há gente sem vocação e pessoas que se calhar nunca deviam ter sido médicos. Garanto-te que são uma minoria. Portanto, não ajudes a espezinhar ainda mais os bons que restam. Assim como um grande amor morre, uma vocação também se cansa de ser insultada e se divorcia. Palavra de honra.

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