Victor Fraile/Reuters

Crónica

Uma peregrinação exemplar

A promessa da peregrinação profanava a intenção, mas a viagem foi de recontro inusitado. Acabei "religando" Compostela a Fátima, com o cume no Mosteiro de Sanfins

Texto de Luís Coelho • 21/08/2017 - 17:19

Luís Coelho
Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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Porfiava a promessa de ir a Santiago de Compostela, por isso resolvi-me a adejar o Minho, na proximidade de um encontro que, admito, teria mais de turístico do que de sagrado. A promessa da peregrinação profanava a intenção, mas a viagem foi de recontro inusitado. Acabei "religando" Compostela a Fátima, com o cume no Mosteiro de Sanfins.

 

Santiago de Compostela parecia longe e não há espaço para tamanho sacrifício de bexiga cheia, eu e os familiares arranjámos um casebre para uma semana, entre Monção e Valença, onde ficámos mediando a relação minhota com os lugares santos. A casa era a estação, uma "estalagem", mas sem o requinte: ficava no meio do mato, a certa altura sem lugar para o carro, tínhamos de subir e fizemo-lo sempre antes de anoitecer, pois não havia iluminação pública. No primeiro dia, a casa deu-nos teias de aranhas, centopeias, um rádio antigo, uma televisão inútil, a quase ausência de água quente, bem como uns poucos instrumentos enferrujados; estava capaz de me ir embora, mas algo nos fez ficar. A natureza bruta ainda me assusta, não escusei o sacrifício de umas tantas aranhas, perpetrámos, ali, uma "solução final" de aracnídeos e insectos, ditando as regras como patriarcas do montículo. À noite, a coisa compensou com umas estrelas cadentes no rescaldo das perseidas, ali pela vizinhança da Ursa Maior, e a leitura de A vida é sonho, de Calderón de la Barca. Olhávamos, também, um casebre, longe, no alto, solidarizando-nos com a solidão encumeada, com o silêncio quase inalcançável da montanha, de quem seria tal casa, como seria possível alguém chegar àquele sítio tão inacessível?

 

No primeiro dia, descobrimos a paisagem, e o glamour prendeu-nos ao Palácio da Brejoeira, ali pelas imediações. O arranque no segundo dia foi para Espanha, Santiago de Compostela, que era o principal destino. A imensidão do porto de Vigo quase amansou a espectacularidade de uma Catedral que se encontrava parcialmente encapsulada por um preservativo de reabilitação. Uma hora e meia de fila para entrar, uma confusão gongórica fora e dentro da Catedral, as pessoas atropelavam-se, o espírito de peregrinação era o de "cada um por si", não vi pés engelhados, senão na escultura, repleta de valor, onde todos se penduravam a fazer macaquices para as selfies. Ao lado, mais sóbrio parecia o Dom Quixote, noutra escultura apatetada pelos transeuntes. Que rico "espírito" que ali se vivia, nem os cajados pareciam conformados, menos estranha parecia a t-shirt do Darth Vader com o cajado de peregrino, nada de mais, é o "gótico" a fazer-se Luz. Desculpa, querida, não consegui trazer-te uma bruxinha das lojas, embruxado vim eu de lá.

 

Nos dias seguintes, nova oportunidade para Espanha, fomos a Tui, mais tarde visitámos outros lugares santos, como Santa Luzia, em Viana do Castelo, e o Santuário de Nossa Senhora da Peneda, já dentro do Parque Natural. Em Monção, Valença, Melgaço, Ponte de Lima, Barcelos, entrámos em igrejas, capelas, lugares sacros, antes e após um almoço profusamente carnívoro. O sol e as subidas faziam o nosso sacrifício. Etimologicamente, a palavra "turismo" significa "fazer dar a volta, girar em torno", e é disso que se tratou, de um eterno retorno cansativo, de um vaivém consecutivo, belo e desalmado.

 

Perto do fim, no penúltimo dia, em jeito de curiosidade, decidimos visitar o Mosteiro de Sanfins. Sem fim parecia o novo caminho de "andar à volta", em serpentina que se eleva, perdemo-nos várias vezes, houve quem quisesse desistir, até que, subitamente, se apresentaram perante nós as ruínas do Mosteiro. Velhíssimas, abandonadas, com aspecto desolador, não se via ninguém, via-se — sim — um aviso de "perigo de derrocada". Não havia ali nada de prometedor, nada do turismo colorido de Santiago. Ouvia-se, apenas, o vento, e algo mais, no fundo. E, inopinadamente, "algo" surgiu em mim, fiquei genuinamente entusiasmado, saltei entre pedras, desci por pequenos vales de ruínas, as teias já nem me assustavam, pulava como nunca, e, aparentemente, tudo aquilo eram pedras cheias de musgo, com o formato do que já foi residência de monges. Na igreja românica, confesso que forcei uma porta lateral, consegui entrar no seu interior, onde se encontrava um ninho no topo de um pilar. Pus-me a imaginar o que seria ter rezado e vivido ali há tantos anos quantos tem a nossa nação. Estavam, por ali, desenhos misteriosos de significado oculto, e não sabia se havia de descer para ver o aqueduto ou subir para perscrutar a pequena capela mais coetânea que encimava o monte. Acabei subindo, sem os receios que costumo ter pelas alturas. Na via, borboletas belíssimas se revelavam, não daquelas que parecem ter fuligem, mas das antigas, multicoloridas, que via muito na minha infância. Sentia um misto de paz e excitação, mas não sei até que ponto algo do passado mistérico da minha vida pode ter emergido, porque tudo aquilo me parecia familiar.

 

Lá de cima, tínhamos uma vista totalizadora do terreno, bem como do rio que serpenteava, escondendo-se de quando em quando. Às tantas comecei a reconhecer parte da paisagem, entrevi a zona de Friestas e uns caminhos que me pareciam familiares. Não precisei de muito tempo para divisar a via pedregosa da casa onde estávamos "hospedados". E, em jeito de "Eureka", percebi bruscamente que a pequena capela onde nos encontrávamos era aquela casita que avistávamos lá em cima, a partir do nosso casulo. Ia jurar que quase me via lá em baixo mirando-me cá em cima, onde o silêncio me alava como as borboletas. Inflamado, não me apetecia sair dali, onde, de algum modo, pacifiquei momentaneamente o intrínseco in-momento. Obrigados pelo entardecer a abandonar aquele espaço, foi possível reparar numa outra estrutura que transparecia mais elevada. Era o cemitério, mais encimado e apartado, refulgindo a imagem da inerente memória. Não pude visá-lo com acinte, esperava encontrar nele (mais) almas tranquilizadas pelo mito. E o facto de não o ter visto adequadamente ainda agora me persegue. Não pude matar a própria morte, sentindo, enfim, que teria, terei, de regressar um dia. Limitei-me a descer, acaso tenha feito de propósito, nutrindo, assim, a esperança com o ludíbrio de um sonho interrompido. Serei, quiçá, obrigado a descer muito mais. Talvez nunca regresse verdadeiramente. E se o fizer, é possível que encontre algo diferente. Diferente, mas não necessariamente inútil.

 

No último dia, voltámos para baixo, despedindo-nos da ventura minhota e galega, mas alguém se lembrou de passarmos por Fátima. Fugi à carne no almoço, mas não fugi à zona do Santuário, onde o sol me queimava como nunca. Também queimava os que caminhavam genuflectidos, ali, onde a agitação, a dor e a devoção eram bem maiores das que pensava vir a encontrar. Nada do ambiente de Santiago, ali há bem mais suor. Não fiz nenhuma promessa, não queimei nenhuma vela, mas trazia comigo a ideia do monte do Mosteiro dos Sanfins, e a saudade do seu silêncio. Um dia direi simplesmente que "gostei" de lá ir.

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