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Sustentabilidade

Unleash Lab: há quatro portuguesas na “reunião mais inconvencional de talentos”

Durante nove dias, mil "jovens talentos" de 129 países rumam à Dinamarca e quatro são portuguesas. O objectivo? Pensar em soluções para os principais problemas do mundo

Texto de Renata Monteiro • 10/08/2017 - 13:19

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Enquanto fazia um doutoramento em design na Central Saint Martins, na Universidade de Artes de Londres, Roxanne Leitão foi nomeada por um dos seus orientadores para representar a instituição no Unleash Lab, a "reunião mais inconvencional de jovens talentos" de todo o mundo. "Existem pontes entre o meu doutoramento, o trabalho do centro de investigação onde estou agora (o Design Against Crime) e os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, por isso pareceu-nos fazer todo o sentido", explicou a investigadora. Roxanne, Rita Cabana e Margarida Paixão são três das quatro portuguesas prestes a partir para Copenhaga (o P3 não conseguiu contactar a quarta representante). A partir de 13 de Agosto e até dia 21, mil "jovens talentos" de 129 países vão reunir-se na capital dinamarquesa para "co-criarem soluções reais e implementáveis" para alguns dos problemas mais urgentes do mundo.

 

Roxanne candidatou-se para a área da saúde, com enfoque no sub-tema de mães e famílias. No doutoramento a que se dedica a tempo inteiro, financiada pelo Arts and Humanities Research Council, está a “tentar perceber como se poderiam redesenhar os serviços de apoio a vitimas de violência doméstica” de modo a torná-los mais eficazes e acessíveis mas, principalmente, “para os preparar para novos desafios”, como a perseguição e monitorização das vitimas através de novas tecnologias (situação que acontece em cerca de metade dos casos de abuso no Reino Unido, refere).

 

A nível mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada três mulheres seja vítima de violência doméstica, um “problema gravíssimo de violação dos direitos humanos e um problema de saúde pública de proporções epidémicas”, denuncia a investigadora. Além de ter sido impulsionada por uma confessa “veia feminista”, Roxanne escolheu este tema depois de ter trabalhado como investigadora e designer de interacção para a Sheffield Hallam University, primeiro em áreas ligadas à saúde e depois em projectos de ciber-segurança e contra-terrorismo. 

 

Através do doutoramento, colabora com três organizações de apoio a vítimas no Reino Unido, mas diz que “a escala é pequena e local”. Com a participação no Unleash Lab, a designer espera “provocar mais interesse no assunto” e, idealmente, “mais investimento em melhorias, não só em serviços de apoio, mas também em educação sobre igualdade, respeito e relações saudáveis”.

 

Co-criar em vez de criar

Para uma designer especializada em design colaborativo, disciplina em que os “serviços e/ou produtos são desenhados e construídos em conjunto com a comunidade que vai usufruir deles”, os métodos de co-criação que vão ser explorados no Unleash são o dia-a-dia. Mas, para Margarida Paixão, médica a trabalhar em Lisboa, a oportunidade de discutir ideias com colegas de “nacionalidades e realidades tão diferentes” apresenta-se como “o melhor” que poderá levar da experiência, “tanto a nível profissional como pessoal”, confessa ao P3. 

 

“No meu percurso académico penso que nos exigem muito saber e decorar e não propriamente inovar”, explica Margarida. Ao trabalhar em ambiente de laboratório criativo, cada um leva uma “ideia original” que, durante o Unleash, será combinada numa proposta final.

 

No Unleash Lab, os "talentos" vão focar-se em sete temas (que posteriormente se dividem em vários subtemas) relacionados com os 17 Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas. Em cima da mesa estarão os maiores problemas sobre os quais a organização global sem fins lucrativos Unleash se debruça, dentro das áreas da educação, energia, alimentação, saúde, produção e consumo sustentável, sustentabilidade urbana e água.

 

A iniciativa de Margarida, enquadrada na diminuição da mortalidade materna, baseou-se na “organização e dinamismo de serviços de planeamento familiar em regiões rurais de países em desenvolvimento”. Um dos pontos do terceiro objectivo para o desenvolvimento sustentável é, precisamente, a diminuição do rácio de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por cada 100.000 nados vivos, explica. “Destas mulheres, a esmagadora maioria morre devido a causas que conseguimos prevenir”, continua, “pelo que, com a correcta alocação de recursos e vontades, podemos salvar muitas mães”. 

 

Para isto, a médica diz ser fulcral trocar “experiências, crenças culturais e religiosas” com os colegas que vai encontrar na Dinamarca.

 

Diversificar para conquistar

Também habituada a trabalhar em equipas multidisciplinares e a recorrer ao brainstorming e à prototipagem rápida para criar projectos disrupitivos está Rita Cabana, engenheira civil de 34 anos especializada em ordenamento do território no Instituto Superior Técnico. 

 

Actualmente, Rita é técnica superior no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e, em 2016, foi uma das premiadas do Programa Bellevue da Fundação Robert Bosch. Esta distinção permitiu-lhe exercer funções no Ministério do Ambiente francês durante um ano, onde acompanhou o projecto Grand Paris, que pretende transformar a região metropolitana de Paris numa grande metrópole mundial do século XXI.

 

Foi, contudo, devido a outra bolsa, também da Fundação Bosch, que surgiu a oportunidade de, nos próximos dias, participar no Unleash. Há poucos meses esteve em Londres, na primeira edição da School of System Change, do Forum for the Future. Aqui ouviu, pela primeira vez, o nome do evento que lhe permitiria “não só explorar os objectivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas de um ponto de vista mais prático, como aplicar os conhecimentos recém-adquiridos”, acredita.

 

O mundo pode ser salvo em nove dias?

Para criar um “laboratório criativo” com pessoas que representem uma geração e que tenham “backgrounds e aspirações diferentes”, a organização seleccionou jovens de todo o mundo. A ideia é que sejam comprometidos em resolver alguns dos problemas "mais urgentes" e que "possuam uma mentalidade inovadora e criativa". Uma contribuição prévia na procura de soluções para problemas sociais também é valorizada, além de vontade de trabalhar em equipa.

 

Dos mil participantes, mais de metade são mulheres com mais de 30 anos, divulgou a organização. Oriundos de 129 países, estão maioritariamente divididos entre académicos e tech experts, mas há também jovens empreendedores e intrapeneurs (empreendedores dentro de empresas). Cada uma das equipas para cada tema de discussão vai desenvolver um primeir rascunho do plano de implementação, a apresentar num formato Dragons’ Den aos colegas, investidores, organizações não-governamentais e especialistas dias depois, em Aarhus, actual capital europeia da cultura. Desta apresentação vai sair um grupo vencedor por cada tema.

 

Ainda antes de embarcar no avião para Copenhaga, Roxanne Leitão reconhece que não vão “resolver os problemas do mundo” numa semana e meia. Ainda assim embarcou na primeira edição do projecto porque diz ser possível que algumas das ideias que saiam do evento “possam contribuir nessa direcção”.

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