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Crónica

Reencontrei os colegas da faculdade num casamento

Foi com eles que vimos mais nasceres de sol do que aqueles que se punham, que a senha da cantina era um cartão de amizade e que quando íamos de fim de semana o coração já começava a apertar

Texto de Marco Gil • 01/08/2017 - 10:58

Marco Gil
Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

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A Joana casou-se no sábado. E colocámos todos fim a um ciclo com mais de uma década. Já não nos víamos há que tempos; na altura ainda se pagavam as SMS e somos amigos de Facebook já depois de nos deixarmos de ver.

 

Estão quase todos diferentes, a Vanda ainda mantém o sorriso coberto de ternura mas está mais séria; a Rita não está bem igual, mas o sotaque alentejano não se vai, aquilo é coisa para sempre. O André tem uma filha, já quase todos estão casados e metade tem filhos, os que ainda não têm estão para ter; a Maria está grávida, ela e mais nove, parece que houve um boom de gravidezes nas nossas antigas colegas, nelas e nas mulheres dos nossos amigos; de repente começou tudo a engravidar e para a maior parte deles vem aí o mais novo.

 

O David está mais calado, ele e todos… Parece que a idade lhes trouxe preocupações e um ar carregado pela vida mais adulta.

 

E o Nuno? Não veio, logo o Nuno que todos queríamos ver. Toda a gente conta uma teoria acerca da sua ausência. Para mim, ele não pôde mesmo, porque o Nuno era unha e carne com a Joana (quando eu não estava).

 

Metade deles estão mais carecas, eles e eu. Metade delas estão melhores; se bem que a idade, no que respeita ao aspecto físico, parece ter sido boa para todos. Mas depois olhei para a Carla.

 

A Joana não mudou, parece não trazer o mesmo ar pesado dos outros e logo ela que vai casar-se, parece que a vi ontem, mas já lá vão 16 anos.

 

Ainda tem aquele brilho no olhar do primeiro dia de aulas, quando cruzou o anfiteatro entre o receio e a dúvida de uma vida académica para nascer. Parou, olhou para cima e sorriu — e no sábado fez o mesmo.

 

Eu? Dizem que estou igual, nem sei bem, porque acordei com uma dor de costas que "só Deus sabe..." (saltei para octogenário depois desta expressão). Mesmo assim, roubei 30% do protagonismo aos noivos porque há coisas que não mudam, mesmo com calvície. Dei tudo de mim e acabei na pista a liderar os que conhecia e os outros ao som de uma música do nosso tempo, acho que era o Levantado las manos. E depois? Depois fui descansar as costas que já não tenho idade para aquilo. Mesmo assim, fazê-los sorrir foi o analgésico para os dias seguintes. Caramba, como ainda gosto de os fazer rir.

 

O Luís parece igual, sempre foi sério, é capaz de estar mais, mas também vai casar-se, não exigi demais dele.

 

A Mariana já se divorciou e as amigas da Joana estão todas casadas. E isto foi tudo feito em coisa de dez anos. Caraças, o mundo dá voltas.

 

A Joana tinha um cavalo, ainda o tem e parece mais novo do que muitos deles, sempre achei que fosse de boa raça, e era.

 

O Edgar parece o mesmo, mas já se retrai. E os outros estão mais cansados ao segundo copo de vinho. Na altura, o vinho nem rótulo tinha e eram tão felizes só de olhar para ele.

 

O que mais me impressionou é que "mão direita" já não é penalty. Sempre achei que fosse para sempre.

 

Até que nos sentámos todos, aos poucos (a idade já não perdoa). E de repente aquele distanciamento de 15 anos começou a parecer ontem. Contámos histórias, das melhores às mais banais. Iam chegando todos, os da mesma turma e os outros. Até as namoradas e os amigos se sentiam a viver aqueles anos gloriosos. Era tudo vivido como se fosse ontem. Alguns professores tiveram papel de destaque, eles e mesmos os que não estavam, todos estavam numa história.

 

Num instante começámos todos com a mesma frase — "Lembram-se daquela..." — e já nos começávamos a rir mesmo antes de se começar a contar.

 

As gargalhas eram iguais às de há 15 anos e as expressões com mais de uma década começavam a ganhar a mesma forma.

 

"Contei ao meu filho aquela que fizeste quando éramos caloiros" e, caramba, voltei a perceber que não foi ontem.

 

A Joana casou-se sábado e começou a reescrever a vida; mas juntou naquela tarde amigos que, ainda que o tempo se encarregue de lhes mudar o caminho, nunca lhes conseguirá apagar as memórias e distanciar corações tão próximos de quem vivia em partilha.

 

Porque foi com eles que vimos mais nasceres de sol do que aqueles que se punham, que a senha da cantina era um cartão de amizade e quando íamos de fim-de-semana o coração já começava a apertar, porque a residência era mais do que uma palavra, era uma família.

 

Descobri no sábado que quando um amigo nosso se casa a esta altura da vida, dá-nos a magia de podermos perceber que não foi há 15 anos, foi ontem que deixámos de ver os nossos amigos da faculdade. Porque não precisamos de estar todos os dias com alguém para gostarmos dele e, ainda que pela manhã apareçamos todos de rostos cobertos, depois da primeira epístola já acenamos uns aos outros dentro da igreja para que a meio da tarde nos juntemos num mesmo espaço que nunca deixámos de ocupar.

 

E a Catarina? Sabiam que foi mãe há coisa de um mês?

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