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Crónica

De volta a casa

Descarregamos o carro e as malas de um outro continente, de outras vidas, os elefantes no meio da sala para que não nos esqueçamos de onde viemos, e para onde temos de ir se quisermos, um dia, voltar

Texto de João André Costa • 30/07/2017 - 08:24

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Estamos de volta a casa. Paramos o carro e a cadela aos saltos, como se não nos visse há três anos, e só passou um, desde o Verão passado, desde o calor passado, e a cadela aos saltos dentro do quintal ao melhor estilo de um coelho, doida de alegria, dor e saudade, como se a cadela fosse portuguesa e os cães se cingissem às nacionalidades dos Homens, bastando abrir o portão para rapidamente sermos recebidos pela língua mais rápida do Oeste juntamente com não menos de 10 minutos de brincadeira, as primeiras fotografias, as primeiras rabias e este “mosh“ à relva na felicidade de quem, agora, volta a casa.

 

Descarregamos o carro e as malas de um outro continente, de outras vidas, os elefantes no meio da sala para que não nos esqueçamos de onde viemos, e para onde temos de ir se quisermos, um dia, voltar.

 

O mofo, o bafio e o calor de uma casa fechada, mas intacta, recebem-nos de braços abertos, para mal dos nossos pecados. Está tudo no lugar. Há dez anos que está tudo no lugar, e passássemos mais tempo aqui e decerto seriam outras as fotografias entre a sala e o quarto e não estas, as de um rapazinho desempregado ou precário conforme o mês e o ano, e menos 20 kg de peso, menos 20 kg de esperança, sem vontade de sonhar por detrás do sorriso triste de quem sabe tão bem como não fora isto a vida prometida, ansiada, desejada por debaixo de insultos, pontapés, chapadas, empurrões e ordenados abaixo do mínimo recomendado para quem quer algo mais, uma vida que não esta num país todo ele responsável por fazer de nós, dia após dia, piores pessoas.

 

E talvez por isso mesmo não tenhamos mudado as fotografias, não tenhamos dedicado parte dos últimos nove Verões a actualizar molduras e pessoas congeladas no tempo como que por magia, quando parte de nós ainda vive dentro de um rapazinho de olhar triste, de sorriso triste, a pedir do lado de lá do tempo e da distância que não nos esqueçamos dele e a memória é tudo o que resta.

 

O dia é passado a limpar a casa. Dentro em breve os teus pais e os meus entrarão pela porta e pelos quartos e é preciso varrer do chão 11 meses de frio e chuva sem mesas preenchidas a copos, pratos e risos.

 

Aos poucos a Natureza toma conta do que foi sempre seu e o quintal é a selva dentro da qual um canídeo faz as vezes de leão. Mas este ano somos empreiteiros, ou não valesse a pena viver lá fora, e desta feita temos um jardineiro para dar conta do recado e o cansaço já pesa nas pernas e nos braços de quem há tanto cuida de um lar.

 

Leva-nos o dia inteiro para desenterrar a casa dos escombros de um ano. Cansados, mas satisfeitos, sentamo-nos no sofá e ligamos a televisão. O Zé está em directo no Telejornal aos saltos com incêndios (ao melhor estilo de um coelho, como a cadela), roubos de armas e não sei quantos piscar de olhos contra o governo, pelo que mudamos de canal mas o Zé ainda está lá, mudamos de canal e mais um piscar de olho, mudamos de canal e o Zé ainda lá, mudamos de canal e mudamos de canal e o Zé sempre lá, a sorrir, a zurzir, a piscar o olho, mais um convidado, mais uma directa, e o Zé, o Zé, sempre o Zé, boa noite, este foi o Telejornal a piscar o olho a caminho do aeroporto, na fila para o “check in“ e o olho na pista de descolagem a piscar o avião de malas às costas, a tomar balanço sem pisar os olhos e a descolar do chão com os dentes nas asas de um avião que nos leve para bem longe da estupidez de um país, a estupidez que nos levou, a mesma estupidez que nos faz voar sem regresso à vista. Boa noite, este foi o Telejornal.

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