Death to The Stock

Crónica

Terráqueos, mas a querer sair da zona de conforto planetário

Neil Armstrong e “Buzz” Aldrin não foram os primeiros a materializar a vontade de emigração planetária da Humanidade

Texto de Marta João • 25/07/2017 - 14:17

Marta João nasceu sem manual de instruções, cresceu com miopia e apurou a ironia. Quando for grande quer ser pequena outra vez

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Tinha 20 anos negativos e ainda marinava nas gónadas dos meus progenitores quando dois senhores – o Neil e o “Buzz” – faziam história ao pular na pouquíssima gravidade da Lua. Cumpriu-se mais um ano desde Julho de 1969, que é como dizer que passámos mais um ano a querer, desde há muito, escapulir-nos do nosso planeta.

 

Até à missão Apollo 11, o céu era o limite e era chato. Chato no sentido de plano, com uma Lua, um Sol e umas estrelas pregadas todas ao mesmo lençol cósmico unidimensional. E chato no sentido da pasmaceira de lá não se passar nada porque estávamos longe de imaginar que lá se passava tanto.

 

Mas Neil Armstrong e “Buzz” Aldrin não foram os primeiros a materializar a vontade de emigração planetária da Humanidade. Quando alguém nomeou este pedaço de rocha redondinha que habitamos, fez especial questão de o tornar... pouco especial. Senão vejamos: fora as discriminações astronómicas, da última vez que saí de uma aula de Ciências Naturais, existiam nove planetas – Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno e, sim-arrepiem-se-os-cientistas, Plutão. Repare-se que oito deles têm nomes galantes, inspirados em divindades mitológicas, bonitos para fazer um figurão num qualquer convívio planetário... excepto o nosso. Terra. Só assim, Terra. Como quem diz que se está melhor noutro lado qualquer, menos aqui.

 

Primeiro, é ironia. Somos mais água que terra. Poderia dizer-se que é um detalhe, mas calha ser exactamente um dos pormenores que mais nos diferenciam dos restantes planetas quanto à possibilidade de vida como a conhecemos. Segundo, é uma desfeita. Temos a sorte de morar num planeta tão esteticamente apelativo e resolvemos tirar-lhe encanto quando lhe demos o nome. Como aqueles bebés absolutamente amorosos que os pais registam como Urraca Josefa ou Bráulio Ladislau.

 

Além disso, soa a ingratidão esta nossa curiosidade astronómica. Somos aqueles filhos que, correndo bem, aos oitenta e tal anos ainda não saíram de casa dos pais e são sustentados pelos recursos da mãe, a quem não se dá o devido valor, mas sempre a garantir que para-o-ano-é-que-saímos.

 

O “one small step for man, one giant leap for mankind” foi o abracadabra que levou o céu a estender-se, de repente, a um universo todo, em dimensões mais de mil. As gerações seguintes passaram a sonhar em anos-luz, com galáxias distantes e buracos negros atrás de outros sóis postos. Continuamos sem saber, com certeza, do que viemos ou para onde vamos. Sabemos só que estamos a ir e a chegar mais perto das respostas. No meio desse processo, apenas não esqueçamos que a Terra é a nossa nave. Terra, assim como quem lhe chamasse Casa.

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