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Crónica

Eu nunca bati no meu filho

O estalo final, meus amigos, não é senão o desespero de quem sabe ter perdido todo o respeito por si mesma e pela criança a seu cargo

Texto de João André Costa • 24/07/2017 - 17:53

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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E entretanto crescemos. Vítimas de um sem número de abusos físicos e emocionais, legislámos, e ao legislar proibimos para todo o sempre, sob pena de prisão, toda e qualquer violência para com as crianças que um dia fomos nós. Para acabar com as guerras de uma vez por todas quando a agressão gera mais agressão, e ao agredirmos uma criança hoje estamos a gerar um adulto violento amanhã. É tão simples quanto isso! Porque, entretanto, crescemos.

 

Eu nunca bati no meu filho. Desde logo por não ter um filho, e mesmo se tivesse não lhe poderia bater, pois o meu filho não existe. E se nunca bati no meu filho, a verdade é só uma: trabalho com crianças todos os dias, sei como falam, como sentem, como não falam ou não querem falar, como choram, batem, gritam os dentes todos e a língua com a dor tantas vezes trazida de casa por culpa de pais cujo maior defeito é a ignorância, a falta de palavras ou a total ausência das mesmas e onde os actos e gestos falam sempre mais forte, cada vez mais forte, até que um dia a criança cresce e a criança reage, e a criança já não é uma criança, é um homem e uma mulher, é um bicho onde nada mais mora para além da sede vermelha de vingança, calor e ódio cegos com uma grande faca nas mãos contra os pais, contra o mundo.

 

Um juiz espanhol ilibou e justificou recentemente uma mãe por ter dado um estalo a uma criança. De acordo com o dito juiz, a culpa é da criança, a qual sofre de “Síndrome de Imperador”. De acordo com o Senhor Doutor juiz, a criança terá desenvolvido o dito síndrome por imaculada concepção, sendo a mãe parte inocente no processo de desenvolvimento desta condição. Ora, Senhor Doutor juiz, a partir do momento em que a mãe, e o pai, não esquecer o pai por favor, permite a um filho a escolha do que se vai comer e quando se vai comer, onde vai a família toda passar férias, o que se vê na televisão e a que horas, a hora de dormir e a hora de brincar então, lamento imenso, a culpa nunca poderá ser da criança mas de quem a criou e deseducou, de quem tolerou as birras constantes a espernear no chão do supermercado, de quem permitiu os pontapés à mãe, de quem anuiu os empurrões ao pai, os insultos aprendidos à custa das discussões em casa, as cuspidelas à avó e os socos nas outras crianças numa espiral de comportamentos apenas existentes por culpa e permissividade desta mãe, a única culpada de ter um filho que é uma besta. O estalo final, meus amigos, não é senão o desespero de quem sabe ter perdido todo o respeito por si mesma e pela criança a seu cargo.

 

E sim, talvez esta mãe tenha passado demasiadas horas no trabalho e no trânsito, entre o emprego e entre empregos, no desemprego e entre desempregos, e talvez por isso esta mãe não tenha visto o seu filho crescer e a culpa do estalo seja, afinal, de todos nós, os que alimentam esta sociedade, esta vida, este dia-a-dia. Ou talvez esta mãe não tenha brincado o suficiente com o seu filho, amado o suficiente, beijado e abraçado o suficiente, de manhã ao deitar, do nascer ao partir.

 

Quem sabe? Eu não, mas ao juiz compete saber, averiguar, clarificar, compreender, decidir e julgar, não contra a criança mas contra uma mãe cujo estalo é a derrota anunciada de quem nunca soube o significado de ter um filho. Eduquem-se novos pais!

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