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Crónica

Uma gentil noite de amor

Hoje vens dizer que a homossexualidade é uma anomalia e eu não consigo deixar de sorrir e afagar, acariciar esta fotografia na folha de um jornal

Texto de João André Costa • 16/07/2017 - 08:55

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Olá Gentil, lembras-te de mim? Eu lembro-me de ti, lembro-me sempre de ti, como poderia eu esquecer-me de ti? Estávamos nos anos 80 e tu já eras um médico conceituado, experiente, experienciado, e eu, ainda virgem de tudo, ainda à procura do amor, do redentor, à procura da vida, à procura de ti, de quem me desse a mão, de quem me apertasse o coração.

 

Estávamos em Julho e o calor sufocava, isto apesar de já serem duas da manhã e eu em parcas roupas no meio da pista, no fogo da pista, a arder, a consumir-me na música e no ardor, a estender os braços, a esticar as mãos e os dedos à procura de alguém, às voltas, aos saltos, à procura de alguém. Tu estavas ao balcão, já eras um assíduo do Frágil e eu ainda tão verde, para mim era tudo novo, o que é queres? E talvez por culpa desta orfandade de amor e de pai, vi em ti o sorriso nos lábios, o olhar fixo, hipnótico, hipnotizado, e ao mesmo tempo o carinho, o amor, a tranquilidade que só vem com o tempo enquanto eu desfilava o tronco, o peito, as pernas e os braços para ti, só para ti, e o público a gritar, o público a aplaudir.

 

Nessa noite ensinaste-me o ABC do amor num desses quartos do Bairro e eu passei a ser parte de ti durante a noite, durante as noites, todas as noites desde o Trumps ao Construction, desde o Frágil ao Finalmente na cama, contigo na cama, connosco na cama onde por debaixo dos lençóis nunca contámos a ninguém tudo o contado, dito e prometido.

 

Mas depois falaste-me da tua mulher, e eu já sabia, não que me importasse a tua mulher, há tantos assim, uma vida toda sob o signo de Gémeos mais esta segunda pele da qual ninguém sabe, ninguém pode saber, mas a tua mulher já sabia ou, se não sabia, desconfiava, pelo que tiveste de ir embora numa manhã depois desta gentil noite de amor, sem dizer adeus, não conseguias, e eu também não, os lençóis já frios de ti aos primeiros raios de sol e eu outra vez órfão de amor e de pai, só e apaixonado, desde sempre.

 

Hoje vens dizer que a homossexualidade é uma anomalia e eu não consigo deixar de sorrir e afagar, acariciar esta fotografia na folha de um jornal. Gentil, Gentil, não sejas assim para contigo, lembra-te de mim, lembra-te de nós, não queiras partir assim porque o dia ainda mal raiou e eu já tenho as pernas e os braços à tua volta enquanto bebes o café na cama e me falas sobre todos os hospitais e todos os doentes do mundo ao mesmo tempo que sonhamos juntos, encostados juntos no calor dos nossos corpos e na brisa fresca do Tejo.

 

A janela está aberta mas ninguém nos vê, ninguém te vê, só eu, e tu a mim.

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