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Crónica

Sonhar: o segredo da eternidade

Sonhar é transfigurar-se, a figura sai do plano físico e concreto. É transcender, vai-se além do querer. É transpor, coloca-se onde não se pode pôr

Texto de Pedro Sampaio Minassa • 11/07/2017 - 13:27

Pedro, 20 anos, é cronista por escolha e viajante por necessidade
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Sonhar é mudar de plano, sair da Terra e chegar ao céu. Sonhando vivemos outra vida, na mesma vida que temos. Sonhar é atividade involuntária, que reúne todos os elementos do inconsciente e tece uma história com princípio, meio e fim. Viver merece sentido, sonhar merece simplesmente ser sentido.

 

Um sonho pode ser o reflexo de situações vividas há anos atrás como também a junção de fatos vividos naquele dia, naquela semana. Por meio dele revemos um ente querido que já se foi, mas que parece ainda vivo, conversando e interagindo, como se ali ele estivesse a conviver contigo novamente. E quem disse que não é ele mesmo? Talvez esteja aqui o segredo da eternidade.

 

Sonhos vêm a ser a caixa de pandora da eternidade, pois sonhar é permitir a união do aparentemente impossível e a realização do naturalmente improvável. É poder ir muito mal num teste e acordar sem sequer tê-lo feito. É sentir que voa e não num avião, é tornar-se vitorioso num duelo que nunca existiu. Sonhar torna o infinito possível, a vida, eterna, e o céu, uma realidade quase palpável. Por isso às vezes acordamos com reações diversas, reflexos do que tivemos o prazer ou desprazer de ter sonhado e daí, vivido em outro plano.

 

No sonho vive-se uma realidade paralela, um plano que capta elementos do mundo real e, sem precisar de senso, os coloca em harmonia numa história que dura, até a realidade física chamar-nos de volta. Sonhar é transfigurar-se, a figura sai do plano físico e concreto. É transcender, vai-se além do querer. É transpor, coloca-se onde não se pode pôr. É transformar, pois do sonho saem respostas para mudar a realidade.

 

É preciso sair do mundo físico para achar as respostas que estão mudas e inertes no mundo metafísico e sonhar é também isso. Não ser mais tu a central de controle de ti. Tua consciência cria problemas que somente tua inconsciência pode resolver, e assim, quando sonhamos, não somos mais nós que voluntariamente nos dominamos, e sim o controle do inconsciente. Os sonhos são a manifestação do inconsciente diante da inquietação do consciente.

 

É preciso dar lugar aos sonhos. Creio que as realizações das pessoas estejam direta e proporcionalmente ligadas à capacidade de se libertarem das amarras do consciente e se entregarem as respostas do inconsciente. Um indivíduo tanto mais realizado é, quanto mais retira dos sonhos, lições de vida. O inconsciente guarda os tempos que já se foram e, como numa grande biblioteca cerebral, organiza os acontecimentos vividos. Quando sonhamos, trazemos os fatos, resolvidos ou mal resolvidos, de volta ao consciente.

 

Cultivar bons momentos em vida é a chave para a biblioteca do inconsciente. Só assim os sonhos serão doces lembranças, onde poderem dizer o adeus àquela pessoa amada, a qual não tivemos a oportunidade de dizê-lo em vida. É poder restaurar o passado através da cura de feridas que ficaram. Sonhar é libertação adquirida com o silêncio do inconsciente.

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