Sociedade

“Desinvestiu-se na droga e na sida”. Ambas “aumentam entre os jovens”

Nos 30 anos do seu projecto Aventura Social, Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e professora catedrática da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, olha para o que foi então o projecto — e para o que seria, se fosse lançado hoje

Texto de Ana Dias Cordeiro • 10/07/2017 - 12:40

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Se fosse lançado hoje, em vez de há três décadas, o projecto Aventura Social, acredita Margarida Gaspar Neto, em vez dos problemas comportamentais e da droga, teria os novos desequilíbrios que se começam a notar entre géneros e as novas tecnologias da informação a assumir o protagonismo.

 

O que é o Projecto Aventura Social?

Quando vim para a universidade, vinha do Ministério da Educação onde trabalhava junto das escolas com jovens com problemas de comportamento. Já naquela altura, final dos anos oitenta, esse era o grande problema das escolas. Não criámos um núcleo formal. Para conseguirmos ultrapassar a necessidade de autorização, demos-lhe um nome que não era nada do que costumava ser: Aventura Social. Não era uma instância com existência legal. Hoje tem mais de 20 investigadores. E foram criados três grandes grupos: um deles é o dos estudos à população — temos redes ligadas à União Europeia, redes ligadas à OMS — em matéria da saúde, da qualidade de vida, e de outros. Outro — a que chamámos Aventura Social na Comunidade — tem a ver com o trabalho de intervenção universal como a rede que criámos para envolver os jovens na reflexão dos temas que lhes dizem respeito. Com este projecto dos Dream Teens, o objectivo é trabalhar as partes positivas. As nossas estatísticas dizem que 20% dos miúdos têm problemas e 80% não têm. Vamos ver porque é que esses 80% não têm [problemas]. Vamos ver, quando as coisas correm bem, por que é que correm bem, e vamos tentar providenciar essas coisas boas, e que sejam os próprios jovens a lutar por elas.

 

Além do problema de comportamento nas escolas, havia outros?

Na altura, associados aos problemas de comportamento, havia os problemas de consumos de droga, a questão da Sida, logo ali nos anos 80. Mais tarde passámos pelo bullying e depois pela questão da obesidade.

 

Se o projecto fosse lançado agora, qual seriam os problemas a analisar de forma prioritária?

Um deles é a desesperança dos jovens relativamente ao seu futuro. Os miúdos dizem coisas estranhas como “Tanto faz ter 10 como ter 20” [nas notas]. Esta desesperança dos jovens afecta-me mais do que o facto de eles serem insuportáveis na escola, como se nem energia tivessem para serem insuportáveis. Há três anos, quando ia às escolas, muitos jovens diziam que o que aprendiam na escola era o que servia para emigrar: ou inglês ou culinária, para serem chefs. Agora eu penso que, com ou sem razão, as pessoas estão a começar a ficar animadas com o suposto fim da crise. Além dessa desesperança, também vejo a família, que vai começar a ter alguns desequilíbrios, e as novas tecnologias como os outros grandes desafios de agora.

 

Que tipo de desequilíbrios?

Por exemplo, vamos ter em breve casais em que as mulheres são doutoradas e os homens trabalham na construção civil. Isso não tem nada de mal em si, a questão é o choque cultural que acontece nas nossas casas, do ponto de vista dos interesses pela sociedade.

 

Os rapazes não apostam tanto na parte académica?

Não apostam, primeiro porque há essa desesperança, e depois porque eles acham que, se aprenderem a arranjar um cano, ou a arranjar computadores, encontram um emprego já e a ganhar mais, e isso é verdade. Mas cria um desequilíbrio entre os casais naquilo que diz respeito à intimidade conceptual e filosófica, sobre as questões da vida.

 

Já vê sinais evidentes de que isso acontece?

Sim, vejo sinais disso na estatística, porque os dados mostram-nos que, até ao 9.º ano, há tantos homens como mulheres e depois os homens desaparecem e não voltam a aparecer.

 

Dizia que o terceiro desafio é a questão das novas tecnologias.

Sim, porque vai mudar as relações humanas. As tecnologias têm coisas fantásticas, as pessoas circulam muito pelo mundo e as tecnologias mantêm-nas muito em contacto. Isso é muito importante. Agora tem que haver outras alternativas. A Internet pode ser utilizada para aumentar o convívio pessoal ou para o limitar, e esse é que é o desafio.

 

Lê a entrevista completa em PÚBLICO.PT

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