Paulo Pimenta

Investigação

Porto: como a noite mudou a cidade

A "Movida" portuense fez descobrir a rua. Ajudou a reabilitar a cidade. E a libertá-la. São algumas das conclusões da tese de doutoramento de Cláudia Rodrigues que estudou, ou ritmografou, o aparecimento e a consolidação de um "party district" no Porto

Texto de Amanda Ribeiro • 04/07/2017 - 14:52

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Sai à noite no Porto há quase 30 anos. Viu o Luso e a Ribeira boémia desaparecer, a Zona Industrial aparecer e desaparecer, a Movida a brotar e a estender-se pela Baixa e centro histórico. E durante anos Cláudia Rodrigues estudou, ou ritmografou, este party district. Percebeu, entre outras coisas, que a noite fez descobrir a rua e o uso do espaço público. Que deu um valente empurrão à reabilitação urbana nesta zona da cidade. Que ajudou a libertá-la, promovendo a diversidade e a emancipação social e urbana.

 

Foram vários os factores que levaram à emergência e consolidação da boémia na Baixa e centro histórico, como a investigadora concluiu na tese de doutoramento, A Cidade Noctívaga: Ritmografia Urbana de um Party District na Cidade do Porto, em que analisou esta realidade entre 2009 e 2014. A Zona Industrial, verdadeiro hipermercado de discotecas até 2007, começou progressivamente a entrar em declínio, associando-se também a vários casos de violência. A requalificação urbana realizada no âmbito do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura ajudou a valorizar e a motivar o regresso ao centro, tal como outras dinâmicas como o “efeito Miguel Bombarda”. E, por outro lado, ainda havia uma certa “nostalgia” pela Ribeira que, desde os anos 90, tinha deixado um certo “vazio boémio” nos noctívagos, algo que a Zona Industrial nunca preenchera.

 

Foi neste contexto que, no início da década de 2000, pessoas “com ligações à noite começaram a apostar na Baixa”. Abriam então, graças à iniciativa privada e espontânea, os primeiros espaços, como a Tendinha dos Clérigos, o Lusitano, o Plano B, o Café Au Lait e, na outra “colina” (se bem que hoje já não é tão visível a divisão traçada pela Avenida dos Aliados), o Maus Hábitos, o Passos Manuel, a Tendinha dos Poveiros, o Pitch.

 

Já ali estavam, porém, cafés e bares pioneiros e bem “resilientes”, como o 77, aberto em 1977, o Pipa Velha e, claro, o Piolho, que “resiste e sofre várias transformações”, agradando tanto a universitários, portugueses e estrangeiros, como a adolescentes ou até a culturas mais alternativas, como era visível há uns anos. Mas há que pensar que este espaço, centenário, está na mesma morada desde 1909, o que também pode ajudar a explicar a geografia da nova área noctívaga. “Era na Baixa”, recorda, “que se fazia a boémia no início do século XX, então muito associada às artes e letras, à tertúlias nos cafés” — ao contrário dos dias de hoje em que se verifica uma “neo-boémia”, mais associada às indústrias culturais e a uma consequente, e talvez incontornável, hipsterização da cidade. Esta coincidência espacial leva a doutorada a considerar que o próprio Porto tem uma “memória que, apesar de tudo, não se apagou”: “As pessoas deixaram o centro porque não era apelativo viver, tem a ver com tendências, com a política urbana da altura; depois, a nível global, há um regresso aos centros, que é feito cultural, boémia e noctivamente.”

 

Rua, o centro de tudo

Movida, portanto, incentivou a reabilitação urbana da zona. Depois dos primeiros empreendedores, mais vieram. Abrem novos bares, restaurantes, lojas, negócios que proliferam até hoje. “Aconteceu o que acontece noutras cidades: outras pessoas viram ali uma oportunidade.” Houve, no entender da investigadora, um certo aproveitamento da Câmara Municipal, então liderada por Rui Rio, desta iniciativa privada. “Mostrava-o no marketing urbano com mupis ou em revistas autárquicas em que o poder local chamava a si ostensivamente a reabilitação da Baixa”, declara Cláudia. Aparecem, inclusive, tapumes com mensagens escritas em inglês. O que também está relacionado com as noções de “mercantilização do património”, de neoliberalismo, de gentrificação. “Há um enobrecimento da cidade, não para quem ali vive, mas para captar fluxos temporários”, diz Cláudia, dando o exemplo da intervenção da Porto Vivo, SRU no quarteirão das Cardosas.

 

Uma das grandes conclusões foi que, com a noite, também se descobriu a rua. “A rua é apropriada pelas pessoas, pelos carros, pelas esplanadas, pela economia informal (vendedores com baldes com cervejas, com cachorros)”, relata Cláudia. Porque é “um espaço para tudo e é público.” Seja legal ou ilegalmente. Os noctívagos começam a concentrar-se no exterior, não apenas na zona do Piolho, também na Praça dos Leões, Rua Cândido dos Reis, Rua Galerias de Paris, Largo Mompilher. Surgem concertos, festas, festivais, como o D’Bandada, em que a rua e espaços improváveis, como igrejas ou bibliotecas, são explorados. Uma prova do potencial “heterotópico” da cidade, conceito foucaultiano que remete para os “usos diferentes de tempos e espaços que podem ser contra-hegemónicos”. É nestas ruas que emerge o botellón, também uma “manifestação de contra-poder”, ainda que com ele surja o “incómodo”, as queixas dos moradores, por exemplo em relação ao ruído e ao lixo. “A noite sai da obscuridade, entra no quotidiano e, assim, arrisca-se a ser controlada”, afirma Cláudia, referindo-se ao regulamento da Movida, que entra em vigor pela primeira vez em 2012 e que foi agora alvo de novas alterações, deverando entrar em vigor em breve. “Mas como é que controlas rua? É um lugar de protesto, é o povo. É muito complicado.”

 

A cidade noctívaga duplica a cidade, aumentando a diversidade (de espaços, de usos, de eventos), transformando-a também sociologicamente. Promoveu, por exemplo, “a afirmação do homem, da mulher, do gay e da lésbica”. “Os ritmos musicais e festivos são emancipatórios”, sublinha Cláudia. Os homens vão para a pista de dança e deixam de estar apenas encostados ao balcão; há mais mulheres como DJ; diversificam-se as festas LGBT e a própria noite dita gay “sai do armário”, deixando de ser tão “escondida”. “Isto é um aspecto emancipatório da noite e que transforma a cidade: começas a ver casais do mesmo sexo de mãos dadas na rua.” “E a diversidade”, ressalva, “provoca a intersubjectividade, o conhecer culturas novas, pessoas novas, e é na rua que as pessoas se cruzam.” Cria-se assim um novo espaço de sociabilização, até de itinerância, com potencial transformador. Ainda para mais no Porto, onde, como tantos dizem, “se vai a pé para todo o lado”, faça dia, faça noite.

 

Ritmografia, um novo método de investigação

Foi em Novembro do ano passado, na Universidade de Coimbra, que Cláudia Rodrigues defendeu a tese de doutoramento em Sociologia, sendo aprovada com distinção e louvor. Mas como é que uma psicóloga de formação acaba por estudar a noite da cidade?

 

“O Porto”, começa, “sempre foi uma grande motivação de estudo”. Por “paixão pela cidade”, mas também pelo “estudo urbano”. Em 2005, depois de colaborar num estudo para criminologia sobre a violência na noite com foco na Zona Industrial, berço do caso Noite Branca, viu-se a ficar “insatisfeita”. “Por não poder estudar a parte positiva”, lamenta. “Só se falava da ‘miséria da vida nocturna’, como costumo dizer. A noite sempre foi representada como um local obscuro; no entanto, a parte construtiva, de transformação urbana, não era estudada em Portugal.”

 

O bichinho ficou desde aí. Então, ao assistir ao início da efervescência da animação nocturna no centro da cidade, decidiu avançar e estudar a formação deste party district para o seu doutoramento. Entre 2009 e 2012, período de emergência deste fenómeno, saía à noite quatro vezes por semana, fazendo um levantamento “sistemático”; seguiu-se um registo de follow up, de 2013 a 2014, período de consolidação e saturação, que incluiu também a realização de entrevistas aprofundadas a “noctívagos invictos”, ou seja, “peritos na cidade noctívaga e nos seus tempos”.

 

Para isso, desenhou um método de investigação, a ritmografia, que integra princípios da ritmanálise e da crítica do quotidiano de Henri Lefebvre (a quem muitos atribuem, quiçá erradamente, a paternidade deste sistema de conhecimento, que afinal foi primeiramente descrito em inícios do século XX por um português, o filósofo Lúcio Pinheiro dos Santos), mas também da fenomenologia, etnografia, errância urbana, estudos culturais. Cláudia fez um diário de campo, recolheu flyers e notícias, tirou fotografias, frequentou cafés e festas, participou em reuniões públicas com moradores, elaborou diagramas e ritmogramas, fez entrevistas. Um método que surgiu no seu pensamento ao andar pela cidade, ao sentir a cidade, e que é “analítico e dialéctico, objectivo e subjectivo, científico e poético, distante e próximo”. Como a noite, afinal de contas.

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