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Crónica

O amor (quase) tudo suporta

Definir amor é definhar o sentimento. Nunca existirá definição. Agora, o amor é utopia? Não, pois todos já sentimos

Texto de Pedro Sampaio Minassa • 29/06/2017 - 14:20

Pedro, 20 anos, é cronista por escolha e viajante por necessidade
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Doce ilusão achar que o amor tudo suporta, pois além de sentimento, ele também é convivência. O amor pode nascer pulsante e ir desfalecendo, como em uma UTI emocional. Escrever sobre um sentimento que praticamente todos já sentiram, porém ninguém sabe definir, e mais, manifestado diversamente em cada um, é muito difícil. Por isso, em matéria de amor estudo não cabe e será que cabe quase tudo?

 

É majestosa a pretensão das religiões, poetas e filósofos em conceituá-lo: “O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso, não é arrogante, não se ensoberbece, não é ambicioso, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda ressentimento pelo mal sofrido, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

 

Neste trecho, Paulo de Tarso chega ao ponto mais próximo de definir amor. Próximo, porque parou na mera descrição. Definir amor é definhar o sentimento. Nunca existirá definição. Agora, o amor é utopia? Não, pois todos já sentimos. Com a proposta de amor do apóstolo, temos, na verdade, um chamado: buscar com nosso amor imperfeito corporificar o amor quase perfeito.

 

A paciência e a bondade são pedras fundamentais num relacionamento. A primeira vem como um dique das tensões e a segunda, como ausência de maldade. Sabe-se que o amor não busca seus próprios interesses, não deve acabar em si mesmo. Amor não é egoísmo: se tu quiseres ser feliz, leve felicidade ao outro. O amor não se irrita, leva com tranquilidade as diferenças. Não guarda ressentimento, é livre e carrega sempre a ferramenta do perdão. Não se alegra com a injustiça ou a mentira, mas sim com a verdade. Mas, espera, tudo desculpa, crê, espera e suporta? Certamente, não.

 

Trata-se de uma luta constante em aperfeiçoar esse amor humano falível ao amor que Paulo propõe: espiritual, não estático, resiliente por superar qualquer coisa. Como humanos que somos, a paciência falha e, às vezes, até a bondade, depois de muita chateação. A ambição vem e esquecemos do outro que está sempre aqui. A soberba brota e o orgulho reina em muitas brigas. O egoísmo cresce com a carência. A irritação surge com frequência nos desentendimentos e o ressentimento pelo mal sofrido é quase impossível de esquecer.

 

Ora, cabe perdão diante de uma traição? O amor não se alegra com a mentira, e quantas são as mentiras injustificadas num relacionamento? Em suma, o amor humano não desculpa tudo, não crê em tudo, não espera em tudo e, definitivamente, não suporta tudo. Basta-nos contar os casos de separação, cujos resquícios de amor ainda existem.

 

O amor humano deve ter a enzima do amor espiritual. O relacionamento dura, não por inexistirem eventuais egoísmos, irritações, ambições, e sim porque o casal, numa vontade enorme de auto superação, coloca-se sempre maior que os problemas. E no fim? Já na sepultura, o casal depositará suas alianças de superação, num gesto de triunfo, onde o amor humano abraça o espiritual.

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