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Crónica

Casamento ou encanamento?

Não sou um crítico do casamento, sou um crítico de suas facetas distorcidas. Quem casa com consciência, passa do estado de natureza ao estado civil

Texto de Pedro Sampaio Minassa • 25/06/2017 - 09:17

Pedro, 20 anos, é cronista por escolha e viajante por necessidade
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É certo que boa parte das raparigas deste mundo sonham com o grande dia em que entrarão na Igreja vestidas de branco, para a sua apoteose catártica. O casamento pode até ser um sonho de muitos, mas se não for matrimônio, não passará de um encanamento.

 

O casamento pode ser uma ficção desde o início. Pode-se casar com o outro, querendo somente a si mesmo. Neste caso, por que não casar com o espelho? Ao menos saberemos o reflexo do companheirismo que queremos, aquele narcisista, afundado no lago do orgulho próprio! Neste caso, infelizmente, se o sujeito casa consigo mesmo, as possibilidades de escapar do casamento com outra pessoa são enormes. Não iludamos o outro, querendo encontrar o que, em nós, procuramos. Portanto, primeiro Alerta: Cuidado para o casamento não virar escapamento!

 

Algumas pessoas casam confiando que o “viveram felizes para sempre” existe, mas quando percebem que isto pode não existir, pelo menos em vida, e que o “viveram felizes” é uma ilusão a acabar na primeira briga: o mundo cai, a casa cai, o sonho vira pesadelo e a realidade desce em algumas lágrimas. Segundo alerta: Cuidado, casamento pode se tornar “cagamento”!

 

O sexo pode ser o objeto da paixão, que ajuda na decisão de que aquilo é para sempre, mas não, casamento é muito mais que cama. O sexo é consubstanciação, o máximo do amor, quando ele transborda, encontra e dá sentido de ser uma só carne, não só no ato em si, mas no que o ato gera. “Amor é divino, sexo é animal”, mas também será divino na medida em que for regado por amor. Portanto, terceiro alerta: Cuidado, casamento não é camamento!

 

O sonho de fazer uma grande festa e, em uma noite, gastar o que em mais de anos, o suor do rosto acumulou, é uma loucura. É mais prudente conter gastos, fazer um casamento que renda boas lembranças do que acabe com sua renda e suas esperanças. O mais é sempre menos, não é preciso de muito para ser feliz, muito menos de um evento televisionado. Quarto alerta: Cuidado, casamento não é caramento!

 

Não sou um crítico do casamento, sou um crítico de suas facetas distorcidas. Quem casa com consciência, passa do estado de natureza ao estado civil. Abre-se mão da vida sozinho, de algumas liberdades e costumes, para se amoldar a uma vida conjunta, que exige renúncia, mas que também pode anunciar muita alegria.

 

Dizem que se será um só corpo, um só espírito e isso é comprometedor. A palavra casamento vem perdendo, depois de tantos acabamentos, sua essência mais bonita: a renúncia da dupla liberdade para o anúncio do único amor. O casamento na sua acepção atual, já foi sepultado no cemitério das palavras mortas, como uma cigarra que deixa só a casca na muda e vai seguir sobre outra roupagem.

 

Declaro, assim, o enterro do falecido casamento, ao tempo em que clamo pela sua imediata ressurreição. Entretanto, enquanto ela não ocorre, nos habituemos a dizer “matrimônio” e um último alerta: Não esvaziemos também essa palavra-estepe, pois, cuidado, matrimônio não é patrimônio!

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