Olhar de dentro a cultura skinhead inglesa

autoria Ana Marques Maia

// data 12/07/2017 - 13:09

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"São pessoas muito simpáticas", assegura o fotógrafo britânico Owen Harvey. "Têm orgulho no que fazem, adoram música, ir a concertos, serem vistos", disse ao P3, em entrevista telefónica. Foi fácil integrar-se nos grupos de "skinheads" que fotografou por toda a Inglaterra, ao longo de quatro anos  facto que será, para muitos, surpreendente. Longe de retratar todos os "skinheads" britânicos, Owen Harvey optou por documentar apenas uma facção particular: aquela cujos membros são fiéis à cultura "skin" original, a que surgiu na segunda metade da década de 60 do século XX. Sim, porque nem sempre os "skinheads" se afirmaram através da proclamação valores racistas e xenófobos. Pelo contrário. Na génese do movimento estavam precisamente ideais de multiculturalismo e tolerância racial. O gosto pela música reggae e ska jamaicana era um dos pilares culturais deste grupo composto por jovens de classe operária britânica e imigrantes da Jamaica brancos e negros que conviviam e trocavam influências no contexto de uma Inglaterra ainda profundamente racista. Nesse período, ser negro e "skinhead" era normal; mais: os "skins" deviam a sua unidade à influência cultural jamaicana. O que era, nessa altura, ser um "skinhead"? Significava ser jovem, pertencer a um grupo de pessoas que se vestia de forma particular, que ouvia o mesmo género de música e que gostava do mesmo tipo de actividades. O cabelo "à escovinha", as botas de biqueira de aço e os suspensórios são, talvez, as marcas exteriores mais distintivas dos membros deste grupo; o amor pela música reggae e ska, o consumo de drogas leves e álcool e a prática de alguma violência eram também traços comuns. "Orgulho, lealdade e irmandade" era o seu mote. Symond Lawes, um dos membros dos "skins" de Wycombe fotografados por Gavin Watson também ele "skinhead" na altura explicou no documentário "Beneath the Skin" que a violência sempre esteve presente no ADN desta subcultura da classe operária. "Os professores batiam-nos, a polícia batia-nos, os nossos pais batiam-nos duplamente. Nós vivíamos rodeados de violência, era normal." A prática dessa violência não era determinada por nenhum tipo de orientação política ou de natureza racista, no entanto. No início da década de 70, os "skinheads" pareciam ter desaparecido do panorama cultural britânico crê-se que parte terá migrado então para a cena punk, uma subcultura fortemente politizada, colada à esquerda radical. O volte-face deste grupo para a extrema-direita é pautada sobretudo pela intervenção directa do partido nacionalista britânico "National Front" sobre este público. A criação de uma editora discográfica (White Noise Records), de uma fanzine direccionada a jovens de classe operária (White Noise), a distribuição nas escolas da revista infanto-juvenil "Bulldog", a organização de uma série de concertos intitulados "Rock Against Communism" (criado em resposta ao evento similar intitulado "Rock Against Racism") são alguns exemplos desse tipo de intervenção; porém, outro tipo de acções mais directas também foram utilizadas, como a atribuição de benefícios/regalias a inscritos no partido. Hoje é impossível dissociar a palavra "skinhead" das palavras "racismo", "fascismo" ou "violência", motivo por que muitos dos "skinheads" originais abandonaram a aparência que os definia. Continuam a existir "skins" anarquistas, anti-fascistas ou simplesmente apolíticos e é nessas categorias que se inserem os retratados de Owen Harvey. O que os une a todos é a paixão pela música, pelo estilo de roupa e cabelo que adoptam, a união e o respeito que existe entre eles. Segundo o fotógrafo, os "skinheads" ingleses são cada vez menos e estão cada vez mais velhos. Mantém-se um universo sobretudo masculino. "Há muito mais homens 'skinheads' do que mulheres", observa. "Creio que esse facto se possa justificar pelo aspecto duro e agressivo que é necessário adoptar. A questão da exibição de masculinidade continua a ser muito importante para este grupo." Continuam a assistir a concertos de ska e reggae, a beber álcool e a consumir drogas leves nos clubes e praias inglesas. Continuam a respeitar todos os homens e mulheres, de todas as raças e credos. Owen Harvey, por sua vez, continua recordar-nos que no mundo que conhecemos continua a ser possível ser negro, anti-fascista e "skinhead" em simultâneo sem que tal constitua um paradoxo.

Eu acho que