Retratar quem morre para perpetuar a vida

autoria Ana Marques Maia

// data 25/06/2017 - 14:11

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O jovem fotógrafo israelita Oded Wagenstein utiliza a fotografia como meio para se confrontar os seus próprios medos; o envelhecimento é um deles, razão por que desenvolveu, de forma quase inconsciente, o projecto de longo termo "The Void We Leave", em Cienfuegos, Cuba. Oded retratou a comunidade sénior que conheceu há quatro anos na ilha e todos os anos regressa para "encontrar apartamentos vazios" — cheios apenas dos objectos que deixaram para trás. A diferença de idades (a rondar os sessenta anos) e a barreira linguística entre Oded e os retratados não os impediu de desenvolver uma relação de amizade. "Fazer fotografias foi apenas um detalhe", explicou ao P3, em entrevista por email. O fotógrafo ajudava-os com as compras, via telenovelas com eles; sobretudo, conversavam muito. "O tempo está sempre a passar. É um pensamento insuportável. Cada minuto que passamos a navegar no Facebook, a conduzir para o trabalho ou a ter uma discussão insignificante é também um minuto de vida que perdemos, um minuto desperdiçado a caminho do fim. Com o processo de envelhecimento, o tiquetaque do relógio torna-se cada vez mais alto." No cerne da preocupação do fotógrafo estão questões relacionadas com a falência do corpo e da mente, a perda de entes queridos, a solidão. "Como me disse Delphin, um dia, 'envelhecer não é uma coisa bonita'. 'Não há mais sonhos para realizar, lugares para visitar; logo partirei e deixarei para trás apenas um vazio entre estas quatro paredes.'" Muitas vezes esquecidos pelos familiares e em situação de isolamento, os idosos com quem Oded conversou pareciam ter esquecido o motivo de existir. "O aspecto mais importante, aquele que pode transformar o processo de envelhecimento em algo minimamente tolerável, é sentirmos que ainda somos úteis para os outros. Essa sensação pode ser obtida tomando conta dos netos, tendo um animal de estimação ou trabalhando depois da reforma, por exemplo. É muito importante conhecer o motivo por que nos levantamos da cama todos os dias. A triste verdade é que, no caso da maioria dos idosos com quem conversei em Cienfuegos, isso não acontece. Gostaria de poder ser mais optimista, mas descobri que envelhecer não é um processo feliz. Mais do que a traição do próprio corpo, mais do que as saudades dos que já há muito partiram, é a solidão e o sentido de inutilidade que tornam tudo mais difícil." Todos os idosos que conheceu eram pessoas muito diferentes, mas, em geral, Oded considerou que todos eram bastante inspiradores. "Eram muito curiosos, sedentos de conhecimento. Fizeram-me mais perguntas do que eu a eles: desde o funcionamento da minha câmara até à configuração da minha casa", referiu. Oded considera a fotografia uma espécie de antídoto da passagem do tempo. "A fotografia permite-me congelar o tempo e isso é uma pequena vitória. A pessoa que está na fotografia já não existe, mas ela está ali representada, no universo da minha imagem, e por isso continua a existir, continua cá, de alguma forma." Wagenstein é licenciado em Sociologia e Antropologia e o seu trabalho já conheceu publicação na BBC e na National Geographic. Além de fotógrafo, é formador da mesma área e "ensina judeus e muçulmanos a utilizar a câmara fotográfica como ponte e meio de partilha de histórias, esperanças e medos".

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