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Crónica

A vida, uma constante variável

Viver não é a melhor escolha de vida, mas sim deixar-se viver. É se reconhecer impotente, mas não totalmente passivo

Texto de Pedro Sampaio Minassa • 18/06/2017 - 09:23

Pedro, 20 anos, é cronista por escolha e viajante por necessidade
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E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão? Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é, meu irmão?” (Gonzaguinha. O que é, o que é?)

 

A vida é uma variável. Paradoxal que é, a vida também é uma constante. Até o último daquele suspiro, daquela última hora, daquele último minuto e daquele, já nostálgico, último segundo, daremos adeus ao mundo e diremos, a Deus, como foi o mundo. A vida é, por isso, uma constante variável, sequencial e conturbada, até o último instante.

 

Alguns levam a vida, enquanto outros se deixam levar por ela. O que é melhor? Deixar a vida me levar ou levar a vida sem deixar que ela me leve?

 

É natural e física, a explicação de que a correnteza de um rio leva tudo que nela estiver. Assim imaginemos também a vida: a correnteza de um rio, a qual leva o corpo hídrico onde quiser. Concluiremos, pois, que a lógica é o movimento constante da vida rumo a um fim. O rio sempre corre para o mar, ainda que com algumas cachoeiras pelo caminho, grandes ou pequenas.

 

A vida é mesmo isso, uma correnteza a levar o corpo hídrico e humano a um fim marítimo e mortífero, para repousar para sempre no oceano. Para se chegar ao estuário ou delta, é preciso passar por pedras e penhascos, cachoeiras e depressões, às vezes, problemas e tribulações, trincheiras e tensões. A vida é mesmo a correnteza de um rio, variável na direção, constante no sentido.

 

Segue-se sempre para o mar, rumo ao mesmo fim. As direções assumidas, porém, podem ser diversas, alguns até encurtam o trajeto, passando por atalhos. Essa constância da vida, no entanto, é surpreendida pela constância superior do tempo, que a diz: - Para, já deu para ti! É hora de ir embora. É hora, é a tua última hora no rio!

 

Ouso dizer que viver é uma constante variável, por não se enquadrar em estudos científicos, explicações epistemológicas. Viver é uma ilusão patética daqueles que acham que são detentores da ampulheta vital do tempo. É se achar protagonista e, às vezes, coadjuvante.

 

Viver não é a melhor escolha de vida, mas sim deixar-se viver. É se reconhecer impotente, mas não totalmente passivo. É ver que a vida e o tempo são superiores à porção efêmera de carne humana.

 

É preciso entrar no rio, para que a chegada ao mar, independentemente do trajeto, seja sublime e que, na última hora, no último minuto e no suspiro do último segundo, ao olhar para trás, dizer: deixei a vida me levar, porém os caminhos eu os assumi. Fui ativo nas direções e passivo no sentido.

 

Viver não tem sentido se não nos deixarmos viver. A vida não tem sentido, se errada for a direção tomada. O fim é o mesmo, o mar e a morte. O que o ditará é seu meio, o rio e a vida. Só seremos felizes, na medida em que nos deixarmos viver!

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