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Crónica

Carta à criança maltratada

A 1 de Junho assinala-se o Dia da Criança. A 4 de Junho é o Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão

Texto de Luís Coelho • 30/05/2017 - 11:03

Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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No "princípio". És quem és, não quem desejas, por ora, ser. Houve o tempo em que o líquido amniótico confortava o terror do mundo, quiseste sair, olha, é este o mundo, como poderia ser outro. Não é grande coisa, podia ser pior. Recebeste as primeiras palavras como quem se estatela, chorando por outra razão, no limite da dor física. Pudera explicar-te que os primeiros gestos, o delir do cordão na união com a brusquidão da realidade, te perfazem em "condição", no grito primitivo. Em breve deixarás de distinguir o que "és" do que te tornaste.

 

Aos três anos. Já percebeste que existe um mundo para além de ti e alguém que se "torna" na relação com o "princípio"? Desconfias, já, que algo de "mau" te acontece, no limite superior da dualidade. Choras, talvez, mais do que a oportunidade faculta às outras crianças. Mas, escuta, teus pais estão te fazendo no mundo, e o próprio mundo para ti. Eles erram, é claro, também eles choraram no passado. Eles batem-te, quiçá. Talvez seja o medo de te perderem, que é um medo de se perderem. Não ligues, pensa, antes, que a palmada é para teu bem, imagina que todos as recebem, que não és caso único de gravidade sobrepujada.

 

Aos seis anos. Sentes-te só. Sentes-te diferente. Sei que te gritam muitas vezes, nem eles se apercebem disso. Eles não sabem, ademais, que te humilham. Pensam fazer algo bem diferente, e para teu bem. Acredita nisso, não resistas, por agora é tudo quanto podes fazer. Não tens culpa alguma do que quer que seja. Não os culpes também. Em breve irás para a escola, acrescentar-se-ão as bofetadas da cultura lida e deslida. Estes são os esforços para te acomodar ao mundo da razão, para te fazer vingar onde tantos fracassam. Mal sabem eles que te frustrarão inúmeros caminhos. À força de te educarem, ficas frágil perante os outros. Que a ordem normal, agora, é não educar, não tocar, o caos é a regra, tomara continuar a haver sociedade séria frustrando os garotos hiperactivos. A ausência de estruturas faz com que os garotos sejam maltratados pela sociedade. O castrado compensará sempre com a escola, o negligenciado com o corpo. Nesta sociedade racional, o primeiro pode sempre fingir-se adaptado. Claro, pode ser que um dia isso mude.

 

Na adolescência. E não é que mudou mesmo? É tudo tão liberal e tu sentes que tudo em ti é controlo e razão. Os valores são outros (pelo menos, dentro de ti). Quem culpar senão teus pais por tudo o que se meteu à bruta na tua cabeça? Quiçá não tenham feito mais do que acharam ser certo. E nós sabemos lá! Tens medo, eu sei, os outros assustam-te, e tu assusta-los a eles, o teu medo é o medo deles. Quando algo correr mal, verás facilmente o copo meio vazio e isso vai mudar tudo daqui para a frente (e daqui para trás).

 

Adultícia. Ainda agora procuras teu verdadeiro ser. Olhas para trás, constantemente, tens de matar teus pais dentro de ti, não entendes? Só podes seguir em frente se os perdoares. Enquanto os culpares, estarás culpando-te a ti mesmo. Aceita-te e serás capaz de mergulhar fundo no inconsciente, na felicidade dos "outros" que pretendes ver enquanto um só. Nada precisa de mudar verdadeiramente.

 

Epílogo. Tudo precisa de mudar. Está na hora de ver a verdade, de incriminar quem te pressionou, bateu, frustrou. À custa disso, farás com que o mundo se vergue a ti, serás príncipe de uma ordem novel. Serás a causa da dor de muitos outros, e sentirás que é justo fazer com que paguem teu sofrimento malvisto. Dirão que és mau. Serás pai e violentarás também, acaso com os valores de teus pais. Mas quando a tua ordem dominar, dirão que foste bom. E essa ordem será o palco de muitas crianças cantando alegremente, escravas inconscientes da felicidade. E a nova "estrutura" será também a desadaptação de muitos cujas estruturas foram excedidas ou negligenciadas. 

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