John Kolesidis/Reuters

Crónica

A experiência como voluntária num campo de refugiados de Atenas

O futuro é incerto e todos procuram ocupar o presente. A burocracia massacra-os, deixando-os na angústia que lhes seja indicado um país de acolhimento. É urgente acelerar este processo de triagem e atender os pedidos de reunificação familiar

Texto de Catarina Rodrigues • 16/05/2017 - 10:26

Catarina Rodrigues é estudante da Universidade Católica

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À chegada ao campo, passámos pelo porteiro e fornecemos as nossas identificações, uma vez que é restrita a entrada a estranhos. O co-fundador da Project Elea, Andreas, vem receber-nos e faz-nos uma visita guiada. Passámos por contentores brancos, duas grandes tendas para realização de atividades e um campo de futebol com relva sintética.

 

Andreas informa-nos dos números: 1700 refugiados e outros 700 sob o comando militar ateniense, todos livres de circular dentro e fora do campo. Alerta-nos para o perigo de serem perseguidos com a publicação de fotografias.

 

O papel da Elea é dar suporte ao apoio que as autoridades gregas e algumas organizações não-governamentais (ONG) fornecem, satisfazendo as necessidades básicas de segurança, habitação, alimentação e cuidados médicos.

 

O primeiro impacto com os refugiados passa por uma troca de olhares que do longínquo se tocam, num confronto de culturas, registado em olhos tristes e assustados, ora por verem o desconhecido espreitar, ora pela saudade da paz.

 

Um recém-chegado voluntário começa com a organização e distribuição de roupas. Num contentor à entrada, forma-se um pequeno aglomerado de famílias, com as suas identificações, cabendo ao voluntário confirmar a família e o que leva consigo.

 

A distribuição de alimentos quer-se rápida, pois são centenas que fazem fila para recolher a comida empacotada. Como muitos não comem carne por motivos religiosos, o desperdício é diário e o fornecimento reduzido a metade. Por isso, aspira-se construir uma cozinha comunitária, deixando de depender das empresas de distribuição alimentar. Todavia, muitas famílias conseguem cozinhar a sua própria comida. E que bela é a refeição de uma mãe síria.

 

De porta em porta, crianças ajudam-nos como intérpretes, para distribuir chupetas, papas de bebé e o leite em pó muito requisitado. A Rescue Comittee dispõe de trabalhadores, alguns que falam fluentemente árabe, e que distribuem kits femininos.

 

Para melhor interacção, um jovem sírio, licenciado em medicina, ensina árabe e o fundamental da sua cultura: a relação familiar próxima e reservada. Aqui, a partilha de cultura é essencial para a futura integração destes.

 

Este campo dispõe de actividades para crianças, coordenadas pelos voluntários, geralmente no âmbito das artes. Por gosto, jovens dançam livremente, reservadas do olhar masculino, enquanto que estes reúnem-se em jogos de bola.

 

Estas crianças estão perturbadas e as carências são evidentes, com tantos beijos e abraços, com o não querer ir jantar para ficar no nosso colo a ver a sessão de cinema, antes de irem para as suas casas, que, no fundo, não são suas.

 

O futuro é incerto e todos procuram ocupar o presente. Longe da memória da guerra e da família, um afegão reconstrói o seu tempo com uma guitarra improvisada. A burocracia massacra-os, deixando-os na angústia que lhes seja indicado um país de acolhimento. É urgente acelerar este processo de triagem e atender os pedidos de reunificação familiar.

 

A União Europeia, imprudente, afirma não ter meios para sustentar esta crise e até fez um pacto com a Turquia, trocando refugiados por vistos de entrada. Somos uma Europa marcada por valores ancestrais, dos quais devemos fazer bandeira e não deixar que os refugiados sejam rotulados como terroristas

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