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Crónica

Eu e a minha Jacke, uma celebração de diversidade na minha empresa

Assim, foi com naturalidade que quando cheguei à adolescência assumi de forma relativamente fácil o gostar de mulheres, primeiro para mim, depois para as outras pessoas

Texto de Renata Silva • 15/05/2017 - 11:28

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Estou, desde há um ano e meio, a trabalhar como programadora de Java na empresa Critical Software, de Coimbra. Sendo eu casada com uma mulher e totalmente assumida, foi-me pedido, no trabalho, que fizesse um texto a contar a minha história de amor para publicar no nosso jornal interno, no Dia de São Valentim. Felizmente que, hoje em dia, já se começa a conhecer e a divulgar mais histórias destas, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até que se tornem banais e que deixem mesmo de ser “notícia”!

 

O texto acabou por ser publicado somente no Dia Internacional da Mulher, o que também fez imenso sentido, já que este é um dia de lutas, de celebração da diversidade e exaltação dos direitos humanos. E esta foi então a história que contei.

 

Desde pequena que pouco me importei com o que pensavam as outras pessoas. O importante era (e é!) o ser coerente com os meus valores, o respeitar todas as pessoas à minha volta, o ser honesta, franca, verdadeira, tal como o meu pai e a minha mãe sempre me transmitiram. Se o que sou ou o que faço não prejudica ou desrespeita ninguém, então porquê ter vergonha?

 

Assim, foi com naturalidade que quando cheguei à adolescência assumi de forma relativamente fácil o gostar de mulheres, primeiro para mim, depois para as outras pessoas.

 

Claro que não foi um processo imediato, até porque, na altura, não se falava assim tanto como agora de homossexualidade. Tive também de lutar contra a minha timidez natural, que não me deixava assim tão à vontade para falar de coisas pessoais de forma muito pública. Claro que também ajudou o facto de estar rodeada de pessoas sem grandes preconceitos neste campo e nunca ter sofrido nenhuma situação de discriminação grave, mas não faz realmente muito sentido para mim não ser transparente em relação ao que sou, ao que penso, àquilo em que acredito.

 

E foi assim que há cerca de dois anos a Jackeline, Jacke para as amigas e os amigos, entrou na minha vida. Ela veio do Brasil diretamente para Coimbra, para fazer uma pós-graduação em Direitos Humanos, e entretanto continuou por cá a fazer o mestrado em Sociologia. Conhecemo-nos através de uma aplicação para telemóveis e desde logo eu soube que era ela a Tal! (Ela demorou um pouco mais a perceber isso, mas eu não desisti e ainda bem!)

 

Somos as duas meio desleixadas em relação a coisas materiais, temos as duas um grande sentido de justiça, lutamos as duas ativamente por um mundo melhor e por aquilo que achamos mais correto. Gostamos de viajar juntas, de ver filmes ou séries enroscadinhas no sofá, de comer uma gordice de vez em quando no meio das comidas saudáveis que tentamos sempre fazer, de ajudar quem mais precisa, fazendo diversos tipos de voluntariado, e muitas outras coisas. Claro que andamos às turras de vez em quando também, especialmente porque eu sou muito racional e ela mais emocional e eu ponderada demais e ela mais impulsiva. Dessas pequeninas diferenças que existem entre nós, construímos um equilíbrio harmonioso.

 

No ano passado, surgiu com naturalidade a vontade de casar (já que o casamento entre pessoas do mesmo sexo passou a ser legal desde 2010 em Portugal e desde 2013 no Brasil, apesar de ainda haver imensos países no mundo com leis absurdas, que criminalizam pessoas como nós). Escolhemos para a data o dia 18 de março e juntámos alguma família, amigas e amigos numa bela festa. Não foi bem bem a festa que queríamos porque a família da Jacke e outra gente amiga que está no estrangeiro não puderam vir, mas ainda temos prometida uma festa maior para quando fizermos cinco anos de casadas.

 

Regras e exceções

Desde essa altura, a nossa vida tem estado cheia de muito amor e de muita partilha, muito apoio e muita cumplicidade, muitos sorrisos e algumas lágrimas, muitas gargalhadas e de vez em quando umas testas franzidas. Mas, acima de tudo, as nossas vidas já não fazem sentido a sós e todos os dias é para nós maravilhoso poder acordar ao lado uma da outra! Acreditamos que continuaremos assim pela vida fora e um dia, quem sabe, aumentemos a família!

 

Foi incrível poder escrever um texto assim e poder partilhar a minha vida pessoal “diferente da norma” com as minhas colegas e os meus colegas de trabalho. A verdade é que somos somente duas pessoas que se amam e que querem construir um futuro juntas: o que tem isso de tão diferente de tantas outras histórias de amor?

 

No entanto, eu sei que tenho a sorte de estar a trabalhar numa empresa que é, sem dúvida, especial. Uma empresa onde posso ser quem sou, sem medo de ser gozada, discriminada ou de sofrer represálias. Uma empresa que valoriza os princípios morais tanto ou mais que o lucro e a produtividade. Quanta gente ainda haverá por aí, por este Portugal fora, que em pleno Século XXI tem de esconder namoradas/os, companheiras/os ou esposas/os, de patrões, colegas e clientes? Infelizmente, acredito que seja demasiada gente.

 

Mas acredito também que chegará o dia em que empresas como a Critical Software serão a regra, e não a exceção, e em que todas as pessoas, independemente do sexo da sua cara metade, poderão falar das suas vidas pessoais abertamente e sem medos no seu local de trabalho (ou em qualquer outro sítio), se assim o desejarem!

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