Pedro Nunes/Reuters

Crónica

Fátima, fado... e Benfica (parte 2)

O país dá sinais desta esperança, mas estes triunfos mediáticos são só isso mesmo, pontas de um icebergue que é o nosso país, um país caracterizado pelos três F's, mas não definido apenas por eles. Longe disso

Texto de Hugo Salvado • 14/05/2017 - 09:47

Hugo Salvado fala português e "informatiquês", é engenheiro e vive na Parede

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Quando, há três anos, aqui escrevi sobre como o título do Benfica ofuscou as celebrações dos 40 anos do 25 de Abril, longe estava de pensar que o superlativo dos três F's da nossa cultura iria ocorrer tão pouco tempo depois.

 

Pensando bem, deveria ter intitulado esta crónica de "Fátima, futebol... e Fado!", com um F bem grande. Mas fica assim, desculpem-me, pela referência ao texto anterior.

 

Do que se passou no 25 de Abril de 2014 e no 13 de Maio de 2017, só uma semelhança: a invasão do Marquês, feita pelos adeptos do Benfica, que agora comemoram um inédito tetra-campeonato que nem Eusébio, Coluna, Simões, Torres, Águas e seus pares conseguiram nos anos 60 e 70, quando dominaram o panorama futebolístico nacional quase por completo.

 

Neste dia 13 de Maio, celebrando os 100 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima, teve o Papa Francisco a celebrar Missa e a presidir à cerimónia de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, os primos da Irmã Lúcia dos Santos, que já haviam sido beatificados por João Paulo II, neste mesmo dia no ano 2000.

 

Não querendo conferir mais importância a um evento ou outro (cada um sabe de si!), o que torna este dia triplamente singular é o fim do "triste fado" das presenças portuguesas no Festival da Eurovisão, onde as presenças, composições e interpretações notáveis de Maria Guinot (em 1984), José Cid (em 1980) e Lúcia Moniz (em 1996), com o melhor resultado luso, um sexto lugar em 23 participantes) esbarraram sempre na fraca presença e influência que Portugal conseguiu ter junto das esferas de influência do Festival. Ganhámos... ganhámos mesmo!

 

Porque este ano, o marketing foi exemplar, fruto de um duo de irmãos (a compositora e o intérprete) que, em Português, Italiano ou Inglês, apresentaram uma ligação fraternal, simples e poderosa ao mesmo tempo, que transpareceu no palco e bastidores, não deixando ninguém indiferente.

 

As interpretações de Salvador Sobral foram sempre de uma qualidade irrepreensível, não só na final, mas na meia-final e no festival português que o apurou para a Eurovisão.

 

A história que é contada, quase em tom de canção de embalar, remete-nos para um amor que deixa de ser correspondido, um amor que uma parte da relação não quer deixar nem ver acabar e que se dispõe a sentir pelos dois, a "amar pelos dois".

 

A personificação dessa infantilidade de intenção, dessa improbabilidade de solução, dessa ingenuidade genuína, é feita com o maior sucesso pelo cantor português e desde há umas semanas que portugueses e demais participantes sentem que esta inevitabilidade de vitória é um facto (estive quase a escrever europeus, mas lembrei-me a Austrália também foi concorrente), apesar do peso que a Itália e a Bulgária conseguem pôr nas casas de apostas.

 

Para se ter uma ideia, o Festival da Eurovisão existe desde 1956 (sucedâneo do Festival de Música de San Remo) e Portugal participava pela 49ª vez desde a sua estreia em 1964, carregando o peso de ser o país com mais participações sem uma única vitória ou, sequer, um pódio (o sexto lugar de Lúcia Moniz fora o melhor resultado), mas sem o peso de poder fazer "os grandes" da Eurovisão olharem para nós como candidatos a um lugar de topo.

 

Também por isso, foi um grande triunfo de Salvador Sobral (que, no Marquês, foi apresentada como "mais uma vitória de um benfiquista") e que a todos deixa orgulhoso, ainda dentro de um período de um ano em que vimos Portugal sagrar-se campeão europeu de futebol, em que vimos António Guterres ser eleito como Secretário-Geral das Nações Unidas, em que vimos Cristiano Ronaldo a ser eleito uma vez mais o melhor do mundo.

 

Estaremos prontos para mais sucesso? Estaremos predispostos a brilhar e a dar o máximo quando as luzes não apontam para nós e nem sequer se acendem, para quando a tarefa é menos poética e se faz "das 9 às 6" (e por aí fora)?

 

O país dá sinais desta esperança, mas estes triunfos mediáticos são só isso mesmo, pontas de um icebergue que é o nosso país, um país caracterizado pelos três F's, mas não definido apenas por eles. Longe disso.

 

Tal como em França ganhámos contra tudo e todos, tal como nas Nações Unidas ganhámos até contra as inscrições de última hora, sabemos que estamos prontos... ai isso estamos. Até fizemos a música ganhar ao festival da canção!

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