Reportagem

A mercearia dos afectos ajuda mais de mil pessoas em Lisboa

Aberta há um ano, a mercearia Valor Humano é uma iniciativa social que o presidente da Junta de Santo António confessa que “preferia que estivesse fechada por falta de clientes”

Texto de Nelma Serpa Pinto • 13/04/2017 - 11:32

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Ao entrarmos no n.º 3 da Calçada do Moinho de Vento, é preciso andar ainda um pouco, ali por dentro do edifício, até encontrarmos o que procuramos e que, visto de longe, faz lembrar uma mercearia como todas as outras. E, Mais de perto, é perceptível o ambiente familiar aqui vivido, como nas lojas antigas. Só que, além de ter apenas um ano, a mercearia “Valor Humano”, onde os clientes são recebidos com entusiasmo e dois beijinhos, apoia seiscentas famílias, mais de mil pessoas, e dá-lhes poder de escolha sobre o que precisam de levar para casa. “Os pedidos de apoio dispararam quando o projecto arrancou. A vergonha deixou de ser um entrave”, explica o presidente da junta de Santo António, de Lisboa, Vasco Morgado.

 

Leite, óleo, azeite, detergentes e champôs são alguns dos produtos perfilados nas prateleiras e que podem ser “comprados” na moeda própria desta loja. Nas notas de um, cinco, dez ou vinte "santo-antónios" está estampada a dignidade no momento de ser ajudado. Os cabazes são personalizados e cada um leva o que mais lhe convém e à hora que lhe dá mais jeito: “Levam arroz e vêm buscar quando precisarem de mais. Não vamos estar a pôr arroz num saco todas as semanas, nem dizer para fazerem uma fila à porta. (…) A política da sopa dos pobres foi muito boa, mas há um século”, afirma o presidente da junta. “Solidariedade tem de rimar com dignidade”, acrescenta.

 

É raro, mas hoje chegaram juntas. Cinco senhoras, já de idade, entram na mercearia e logo que vêem as duas funcionárias os beijinhos e abraços começam a ser distribuídos. Isabel e Luísa trabalham a tempo inteiro na “mercearia dos afectos”: “Somos merceeiras da melhor mercearia do mundo”, afirma Luísa Chaves, responsável pela gestão de stocks da mercearia. “A maior parte das pessoas, principalmente as mais idosas, deitam pra fora o que sentem, e hoje até podem levar só o arroz e amanhã vêm buscar o açúcar só para contarem mais uma história”. Maria da Conceição, que veio para fazer compras, ao ouvir Luísa diz lá do fundo: “É porque as meninas são muito queridas connosco!”.

 

Isabel Nunes é quem faz as reposições de hora a hora e atende os utentes diariamente: “Trato as pessoas pelo nome, falam comigo dos problemas e alegrias… Esta é a verdadeira mercearia de bairro”, explica. Durante a conversa, Alcina Silva, outra freguesa carenciada, desabafa que este projecto da freguesia é “uma grande ajuda” no seu dia-a-dia.

 

Cada família recebe os seus "santo-antónios" a cada mês para ser possível um maior controlo e uma melhor gestão, embora o presidente Vasco Morgado garanta que “as pessoas sabem gerir e não vão pedir mais notas”. Os serviços sociais analisam o rendimento per capita do agregado familiar e é assim que determinam a distribuição desta moeda que em nada equivale ao euro.

 

A mercearia não está aberta apenas para às famílias mais carenciadas da freguesia. A classe média, que por vezes também passa por dificuldades, é ajudada: “Quando se passa a linha todos ajudam, mas estas pessoas que estão na linha também precisam”, explica o presidente da junta. Nessa posição estão muitas vezes os cidadãos que, nas palavras de Vasco Morgado, “são novos para se reformar, mas velhos para trabalhar”. Caso a situação destas pessoas melhore, vão, gradualmente, deixando de receber ajuda.

 

A junta de Santo António destina mil euros mensais para comprar produtos para a mercearia, que só não tem carne nem peixe. Porém, são as parcerias com comerciantes locais e empresas que fazem com que as prateleiras da primeira mercearia social do país estejam sempre recheadas, sem esquecer a maior parceira, a Fundação PT, e o padrinho Fernando Mendes.

 

Enquanto Isabel faz as contas do que vai no carrinho, os fregueses vão contando os "santo-antónios" que têm para trocar pelos bens que escolhem levar. Já são 18h e, por isso, são os últimos clientes do dia. Depois é hora de repor os produtos e encher as prateleiras para estar tudo pronto para os primeiros clientes às 10h do dia seguinte.

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