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Crónica

Um homem deve escrever sobre as mulheres

A força não tem sexo, cor ou religião e vem sempre do coração, constitui-se pela luta que exercemos pelos nossos ideais, e mesmo que por vezes não tenha um final feliz, acaba sempre por vencer

Texto de Marco Gil • 05/04/2017 - 11:23

Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

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Foi há dias em Amesterdão numa manifestação pelos direitos das mulheres que lhes conheci a união, muito depois das causas e daquilo em que acreditam.

 

Choravam de mãos dadas e firmes, como se o mundo mudasse naqueles instantes, porque na realidade para elas muda, as batalhas são guerras que se ganham por cada coração que conhece a causa certa e em vez de cruzarem os braços, cerram os punhos de amor pela justiça.

 

Observei cada rosto carregado pela bravura de quem tem uma íntima relação com a coragem e a solidariedade, de quem acredita que a justiça se faz agindo, mas sobretudo de quem sabe aquilo em que acredita, porque de facto as mulheres são mais esclarecidas.

 

Por isso é que para mim o feminismo tem um poder sem exactidão, porque se faz de união e se caracteriza pela partilha de um sentimento que é comum a todas, sem que conheça ruptura ou dias maus.

 

A força não tem sexo, cor ou religião e vem sempre do coração, constitui-se pela luta que exercemos pelos nossos ideais, e mesmo que por vezes não tenha um final feliz, acaba sempre por vencer.

 

Mas a força das mulheres é superior a qualquer "manif" que me tenha sugado a admiração, porque esta se faz e se conhece a cada detalhe;

 

No último retoque no cabelo da mais nova antes de a deixar no infantário, na capacidade inegável para conseguirem desenvolver as mais variadas tarefas e ao mesmo tempo, no requinte pelo lar, por decorarem as datas importantes, pela tenacidade de se conseguirem arranjar depois de milhares de tarefas domésticas ou ao mesmo tempo que estas, por se desdobrarem entre o trabalho e uma criança doente, pelo instinto protector superior a outro qualquer ser humano, pelo cuidado de perceberem cuidadosamente o elogio adequado e até a ausência dele no dia em que este faria mais sentido...como naquele dia do vestido comprado religiosamente para a ocasião, porque a tampa da sanita não pode de facto estar sempre para cima, pela segurança demonstrada nas alturas de maior insegurança, pela camisa sempre passada que nem sequer é a sua, pela pressão na ausência desta e vice-versa, pela capacidade de relativizar, porque na hora de se estar doente para elas "não é nada", pela compreensão da incompreensão quando estão menstruadas, porque nos ocultam os problemas para evitar que soframos, porque criticam tudo e mais alguma coisa e no fim ainda se culpam por isso, pelo instinto e até pelo sexto sentido...porque faz mais sentido que tanta coisa, pelo equilibrio e até por aquele que se exige quando os saltos são altos e as calçadas são íngremes e pela tranquilidade no meio da confusão.

 

As mulheres são verdadeiramente do melhor que o mundo nos deu a conhecer, que vale a pena cada instante que nos faz cruzar com cada uma delas, porque a essência de uma é sempre diferente de todas as outras, porque as particularidades nunca são as mesmas; porque uma mulher inteligente, dois copos, vinho e um céu estrelado é um orgasmo intenso e puro, tão forte como vida.

 

Porque cada mulher é uma nota musical, ou um soneto com rima soante ou versos soltos, mesmo quando esta não seja feita de regras e nada lhe seja linear.

 

São as mulheres que dão à luz e mesmo que este cliché acerca delas se repita invariavelmente não conheço um poder maior que aquele que nos reproduz e nos multiplica, que nos permite estarmos aqui a falar disto ou até de outra coisa.

 

São distintas, fortes, firmes, decisivas e com decisão, capazes do melhor ou do extraordinário. Podem ser meigas e sensíveis mas até quando são ásperas e rudes nos cativam...porque conseguem ser. Têm a personalidade expressa no olhar e o requinte na presença. São expressão e intensidade, e caramba...como gosto delas nos dias maus.

 

A mulher consegue mesmo o impossível e há poucas coisas tão boas como uma mulher feliz, daquelas que abrem o sorriso e se vê o coração.

 

Somos diferentes, maiores, especiais e ainda nos revestimos de magia quando nos rodeamos por elas e nem se trata de sexos, do mais forte ou do mais fraco quando nos permitimos à dádiva de coabitar com a tranquilidade ou até com a agitação que exercem sobre nós.

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