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Crónica

Demorei 40 anos a chegar aqui

O nosso amor por todas as coisas da nossa infância que ficaram para trás é agora provavelmente maior do que o foi então, quando não conhecíamos nem tínhamos mais nada e o mundo se resumia à nossa rua

Texto de Hugo Filipe Lopes • 20/03/2017 - 14:15

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Nunca pensei chegar o dia em que fizesse 40 anos. Não por alimentar qualquer ideia romântica de morrer jovem mas porque sempre me pareceu um marco intransponível, devido ao preconceito associado a essa idade. Desde o Paco Bandeira lhes chamar ternurentos, até ao próprio rótulo de quarentão, passando pela clássica crise.

 

Quando era eu o adolescente achava os quarentões velhos, decrépitos e, na maioria, barrigudos conformados. Terei entretanto transitado do estado jovem para o estado da meia idade em permanente negação? Olhando à volta vejo a maioria da pessoas da minha geração — palavra cujo uso denota crise de meia idade — com o mesmo ar que tinham há duas décadas, vestindo-se da mesma maneira, a ouvir o mesmo estilo de música, a praticar os mesmos desportos. Talvez um pouco mais cínicos e cansados, com menos paciência e tempo para as coisas de outrora, mas o nosso entretenimento de agora não é muito diferente do entretenimento de antigamente. Onde antes havia o Spectrum, agora há os telemóveis. Onde antes havia cassetes, agora há mp3. Os jogos de futebol, as "skatadas", as "surfadas" e andar de bicicleta continuam a existir e nalguns casos as mesmas saídas à noite, com os mesmos amigos a beber da mesma forma. Mesmo que de um modo mais selectivo, continuamos tão vidrados nas nossas séries preferidas como antes, ainda que agora sejam os “Walking Deads” e os “Stranger Things” deste mundo em vez de ser o “Justiceiro” ou os “Soldados da Fortuna”.

 

O nosso amor por todas as coisas da nossa infância que ficaram para trás é agora provavelmente maior do que o foi então, quando não conhecíamos nem tínhamos mais nada e o mundo se resumia à nossa rua.

 

Vamos a festas que celebram décadas passadas, vemos cinema passado nas décadas em que crescemos e falamos com os nossos amigos sobre como as coisas eram antes, provavelmente porque neste momento o número de anos que ficou para trás será equivalente ao que temos pela frente.

 

Ao contrário dos quarentões da nossa infância, não queremos os descapotáveis e os parceiros mais jovens que eram a imagem de sucesso de então. Queremos sim ter o aspecto e o estilo de vida com que sonhámos quando tínhamos tempo mas não dinheiro para o ter, viajando ao sabor do improviso. Podemos ter deixado de andar na escola e começado a trabalhar, mas na verdade a diferença não é assim tão grande, porque continuamos a ter de permanecer sentados, silenciosos e obedientes à espera da hora da saída. E ainda sonhamos com aqueles Verões das férias grandes, em que as tardes eram perfeitas e nos sentíamos invulneráveis e eternos.

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