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Crónica

Nem oito, nem oitenta

Numa altura em que tanto se fala sobre o controlo das informações pessoais dos cidadãos, não se compreende como é que ainda não há uma forma de partilhar informações relevantes entre as várias entidades oficiais

Texto de Maria Penha • 14/03/2017 - 14:55

Maria Penha
Maria Penha tem 21 anos e estuda Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto

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Tenho uma amiga que, aos 15 anos, decidiu fugir de casa. Um acto de rebeldia, típico da adolescência, que durou apenas um dia e cuja única consequência mais grave foi o enorme susto que, na altura, pregou aos seus pais. Ora, essa mesma amiga estava, há uns dias, a passear num jardim público quando, subitamente, se deparou com uma jovem, que se encontrava bastante agitada. Preocupada, decidiu aproximar-se da rapariga para averiguar o que se passava e esta — uma turista espanhola — confidenciou-lhe estar a ser assediada por um homem, cuja má fama era já conhecida por aqueles lados. Perante isto, a minha amiga decidiu chamar a polícia, que interveio na situação e anotou os dados de ambas, caso fosse necessário prestar declarações mais tarde.

 

Porém, uns dias depois, essa amiga lembrou-se que daí a umas semanas viajaria de volta para a Alemanha, onde vive actualmente, e, portanto, não poderia comparecer no tribunal caso fosse convocada. Assim, decidiu dirigir-se à esquadra da polícia para se informar sobre o que deveria fazer. Chegada à esquadra, o polícia que a atendeu pediu-lhe os dados pessoais. Após inseri-los no computador, fitou a minha amiga, com um semblante sério: “Menina, diz aqui que a menina está desaparecida há cinco anos.” Imagine-se a cara de espanto: “Desaparecida? Como assim? Acha que se eu estivesse desaparecida estava aqui a falar consigo?”, contestou, incrédula. O polícia indicou-lhe a data do suposto desaparecimento: 2012. Após um momento de confusão, fez-se luz na cabeça dela: tinha sido o ano em que decidira fugir de casa. Na altura, os seus pais notificaram a polícia no dia em que a filha voltara a aparecer. No entanto, por lapso de alguém, esse aparecimento nunca chegou a ser registado. E, assim, esta amiga permaneceu desde aí na lista de pessoas desaparecidas. “Mas, entretanto, eu viajei, inscrevi-me na faculdade, fui ao hospital… como é que nunca repararam nisso?”, questionou, perplexa. Pelos vistos, ficou a saber, as listas de desaparecidos não são partilhadas com essas entidades. Perante o mal-entendido, a polícia apressou-se a rectificar o erro — não sem antes telefonar aos familiares para confirmar a veracidade da história, tendo em conta a sua menoridade na altura do desaparecimento — e a minha amiga saiu dali com uma história caricata para contar.

 

O episódio até podia ser engraçado, não fosse o seu quê de sombrio. Se esta pessoa não se tivesse dirigido à esquadra naquele dia para cumprir um dever cívico, teria permanecido para sempre na lista de jovens desaparecidos. Mais um número esquecido entre as estatísticas. Faz-me pensar se isto terá sido uma excepção ou se, como este, haverá outros casos semelhantes — e essa possibilidade é inquietante. Numa altura em que tanto se fala sobre o controlo das informações pessoais dos cidadãos, especialmente no que diz respeito ao combate ao terrorismo, e em que as novas tecnologias imperam, permitindo-nos estar em contacto permanente com pessoas de todo o mundo, não se compreende como é que ainda não há uma forma de partilhar informações tão relevantes entre as várias entidades oficiais. Por um lado, procuram controlar tudo e, por outro, deixam escapar algo assim. É caso para dizer: nem oito, nem oitenta!

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