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Crónica

O corpo

Tenho uma doença neuromuscular que me provocou alterações, bem notadas, no meu corpo. Excluir alguém, única e exclusivamente, pela sua aparência corporal, constitui o corte cruel e pela raiz de toda a possibilidade de inclusão

Texto de Rui Machado • 17/03/2017 - 13:21

Rui é mestre em Psicologia Clínica, co-criador do Sim, Nós Fodemos e membro dos (d)Eficientes Indignados. E gosta de escrever

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Nunca ninguém nasceu sem corpo. Fala-se de espíritos e de entidades espectrais mas provas da sua existência teimam em não ser claras. Resta-nos então o corpo como prova cabal da nossa existência. De ser tanto, é difícil de o definir. Mas vou tentar... É, pelo menos, aquilo que nos permite ser e fazer; aquilo que nos possibilita existir e interagir com os outros e o meio. É, normalmente, o que primeiro tomam conhecimento sobre nós, é a primeira informação que disponibilizamos com a força das inevitabilidades. Talvez por isso nos cuidamos e não nos apresentamos na rua sem antes fazer todo um conjunto de preparos. Temos gosto em ser aceites. Vou ainda mais longe: procuramos ajustar-nos a um padrão que nos interessa respeitar (por alguma razão) e que alguém definiu e validou. Cuidar do corpo não é mau! Antes pelo contrário. É importante sermos investidores de nós mesmos. Mas que padrões serão estes que procuramos chegar perto? Quem os definiu? Quem os valida?

 

Acho que entramos naquilo que se poderá chamar de ideais de beleza. E é importante não os aceitar sem perceber exactamente o que estamos a fazer. Eu tenho sérias dúvidas do seu contributo para vivermos numa sociedade igualitária e inclusiva. É extraordinariamente difícil definir a importância certa e saudável a dar ao corpo. Quanto a mim, a medida certa é aquela que permite aceitar e compreender todos os corpos em toda a sua diversidade. Altos, baixos, gordos, magros, direitos, tortos, etc. Excluir alguém, única e exclusivamente, pela sua aparência corporal, constitui o corte cruel e pela raiz de toda a possibilidade de inclusão, com implicações nas diferentes dimensões que a vida vai assumindo.

 

Tenho uma doença neuromuscular que me provocou alterações, bem notadas, no meu corpo. Alguns de vós ficariam incomodados se me vissem sem roupa: tenho ossos diferentes; e carne e músculos a menos. Mas garanto-vos que isto é um corpo mais semelhante ao vosso do que diferente. Gosto de o manter quente, asseado, ele pede-me alimentos e até os processa com uma competência assinalável. Para além disso, quando passa por mim uma menina cheirosa, partes desse meu corpo alegram-se-me. Acho possível que isto seja um corpo, sim. Arrepia-se quando alguém o trata como qualquer outra coisa menos.

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