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Crónica

A felicidade líquida e os millennials com frio

Chega-nos uma pluralidade de autores para definir o "pós-modernidade" e muitos explicam-nos o paradoxo dos millennials, afirmando que estes estão depressivos por se terem tornado abusivos e excessivos na utilização das redes sociais

Texto de Michaël Lança • 27/02/2017 - 17:09

Michaël Lança já viveu em quatro países e está a concluir o mestrado em Ciências da Comunicação

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Neste inverno glacial, a mente séria e agelasta desmente qualquer apanágio feito aos mais friorentos. Simplificando, a felicidade líquida nos millennials é duas felicidades: uma fria, que nada sente, lentamente; e uma quente, que tudo pressente, fogazmente. Uma leva à escuridão; a outra traz a fulvidez. A primeira assenta no comodismo e no instantâneo. A segunda, na obsessão em não falhar e na calma. A direita não se assusta sempre. A esquerda nem sempre se aquieta. Pensa-se assim a felicidade, como a terra do nunca. Mas as consequências das acções estão a cargo de quem as pratica.

 

Chega-nos uma pluralidade de autores para definir o “pós-modernidade” e muitos explicam-nos o paradoxo dos millennials, afirmando que estes estão depressivos por se terem tornado abusivos e excessivos na utilização das redes sociais.

 

O importante será perceber que não devemos estar contra tudo, porque o estar contra tudo é estar a favor de algo, mas ao contrário.

 

Por isso é que esta é uma “felicidade líquida”, que não segue rumo certo, movimentando-se como água, pelas feridas profundas da grande maioria da humanização, alertando, assim, os friorentos.

 

Mas repare-se que esta vaga de frio, em pleno inverno, parece congelar memórias. Vemos, por um lado, que a generalidade desta geração, com tremeliques e mesmo não gostando do frio, nada faz para se aquecer — o grupo do fenómeno da “instagratificação” (gratificação instantânea) — e pede e exige o momentâneo, apoderando-se do volume de “visitas” e “gostos” recolhidos, como se de uma cerimónia de Grammys se tratasse.

 

Por outro lado, temos o outro grupo, minoritário, que também são friorentos, porém, sempre aconchegados e enrolados em mantas e sacos de água quente, invocando e valorizando o que é orgânico, genuíno e “próximo”, isto é, o criar laços humanos, gerar confiança, etc.

 

O primeiro grupo acusa o segundo de ser anti-social. O segundo afirma-se como o verdadeiro social.

 

A verdade é que, para alguns, nada parece servir. Uns partem ofegantes, outros regressam vivaços. Os resmungões estão condenados à escuridão, os optimistas afastam a depreciabilidade.

 

Os friorentos parecem ser acusados de narcisismo, de serem auto-interessados, não serem focados, serem preguiçosos e, por algum motivo, continuam insatisfeitos e verificam que continuam a não ser felizes. E, por isso, mesmo com frio, nada fazem para se aquecer.

 

O que se constata é que falta uma peça importante do puzzle: o meio envolvente. Mas enfim... os jogos estão feitos. Esta é uma geração que parece não ter estado habituada à cooperação, à geração de confiança, à “proximidade”.

 

Este é o vício dos tempos modernos. Mas o bom não ganha sempre e o mau nem sempre perde. A diferença surge na aceitação da fatalidade da catástrofe. Deixem o sol entrar. Mas até lá, devemos cobrir-nos e, assim, proteger-nos do frio e das doenças tecnologicamente transmissíveis…

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