Há um prenúncio de morte no coração da Lituânia

autoria Ana Marques Maia

// data 03/03/2017 - 17:55

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O projecto fotográfico "Soon To Be Gone" é traduzível em palavras como um prenúncio de morte. O êxodo rural não é um fenómeno novo ou desconhecido, mas a intensidade com que afecta as zonas do interior da Lituânia ameaça extinguir terminantemente a vida que ainda resiste nas aldeias do país. "Atravessei quase todo o território da Lituânia — por estradas principais e secundárias", disse o fotógrafo lituano Tadas Kazakevicius ao P3. Nessa travessia, o fotógrafo constatou que uma grande maioria das aldeias que visitou se encontram praticamente desertas. "Acho que é, sobretudo, o desemprego que conduz as pessoas para fora das zonas rurais. É muito difícil para uma família sobreviver condignamente numa aldeia e há já muito tempo que se tornou impossível viver sem dinheiro, como faziam os agricultores antigamente." Ernestas vive em Višakio Rūda, uma pequena aldeia lituana, e é caseiro de uma propriedade de um amigo que emigrou para os Estados Unidos da América. "Não é um trabalho fácil de fazer neste lugar deserto. A terra está sempre a reclamar este espaço e está tudo em decadência. Tenho de tomar conta de tudo isto enquanto ele está nos Estados Unidos, e não há ninguém que me faça companhia, a não ser este gato", lamentou ao fotógrafo. "Há muito tempo, este edifício era um bem de valor e agora olha só", dizia, apontando para um edifício central da aldeia de Šešuolėliai II. "Agora está decadente e tenho a certeza de que ninguém o irá recuperar." Quem permanece nas aldeias tem um sentimento em comum: a saudade. Saudade do tempo em que havia vida, actividade económica, durante o qual a população se reunia para assistir à missa e os animais existiam em abundância. Decadência é a palavra que se impõe nestes lugares. "Os mais idosos são apoiados pelas famílias ou têm pensões. Há muitos que acabam por sair da sua aldeia, da sua casa. Existem, tristemente, muitas pessoas que vivem em exclusão. Muito alcoolismo e infelicidade, mas eu tento evitar essa imagem. Já existe cobertura noticiosa e documental suficiente para esse assunto. Eu prefiro mostrar aquilo que é belo nos lugares." O projecto de Tadas Kazakevicius foi recentemente finalista do concurso Exposure 2017 da Lens Culture.

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