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Crónica

Daqui ninguém sai vivo

Quando este corpo der as últimas, perceberemos que não somos nada que não comida para os vermes e que tudo o que conhecemos, pensamos ter conseguido, amámos e odiámos desaparecerá

Texto de Hugo Filipe Lopes • 16/02/2017 - 11:55

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Uns enterrados e outros cremados, mas todos vamos para o mesmo sítio. Acreditando no céu, na reencarnação ou em absolutamente nada, pouco importa. Quando este corpo der as últimas, perceberemos que não somos nada que não comida para os vermes e que tudo o que conhecemos, pensamos ter conseguido, amámos e odiámos desaparecerá.

 

Por sabermos isso tão bem é que é incompreensível a morte continuar a ser assunto tabu. Não a morte alheia, não a das celebridades ou a das notícias, constantemente presentes nas nossas vidas, mas a morte real, com odor, cor e consequências. Aquela que ninguém, rico ou pobre, homem ou mulher, crente ou ateu, consegue evitar. Continuamos a agir como se isso só acontecesse aos outros, aos que aparecem nos jornais ou aos que estão do outro lado do mundo mesmo quando nos roça de perto, atingindo vizinhos, amigos ou familiares. Apesar de tudo, hipotecamos a nossa vida e agimos como se fosse algo que não nos vai acontecer, comportando-nos como se fossemos imortais e invulneráveis, desperdiçando tempo precioso em querelas inúteis, trabalhos sem saída, relações sem futuro e comportamentos de risco. Desprezando-nos a nós próprios porque a nossa sociedade não nos prepara para a inevitabilidade da morte, antes escondendo-a, pois doutra forma quantos de nós continuariam a viver como até agora?

 

Em vez de abordarmos o assunto, não duma forma científica ou emocional, mas com naturalidade e de forma clara, frontal e racional, fazemos colectivamente de avestruz para continuar a cometer os mesmos erros de sempre, às vezes até ser demasiado tarde para os reparar. Provavelmente numa esperança de que a ciência ou um milagre inverta o curso das coisas, quando o que deveríamos era procurar aceitação. Entretanto aproximamo-nos do fim e o que temos para mostrar, se não for uma reforma miserável, uma saúde débil ou uma solidão avassaladora? Essa é a razão pela qual insistimos em esconder os nossos velhos e imitamos os novos, quando historicamente sempre foi o contrário que aconteceu. Por mais que neguemos e continuemos a acumular coisas, a fazer operações para enganar o tempo e a pensar cada vez menos no assunto, daqui ninguém sai vivo e o relógio não pára.

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