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Crónica

O primeiro Dia dos Namorados

A tua cara veio nas notícias e a minha também, desaparecidos, apaixonados, e o teu pai nas televisões a prometer-nos tanta surra, todas as agressões

Texto de João André Costa • 13/02/2017 - 12:38

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Meu amor, hoje vou ter contigo ao acordar, para te acordar, para te ver e beijar, e atirar pedrinhas à janela sem que o teu pai saiba ou suspeite que a vida e o tempo vieram para te levar aos primeiros raios de sol do nosso primeiro Dia dos Namorados.

 

Meu amor, hoje vou ter contigo ao acordar, e por não ter dinheiro vou saltar um quintal e trazer todas as rosas que a coragem e a rapidez permitam. Afinal, temos dezassete anos e do mundo só nos conhecemos aos dois e a estas mãos entrelaçadas, enamoradas, apaixonadas, sorridentes, dois pares de lábios que se juntam e que se juram nos tambores do peito e de suspiros tão perdidos como adolescentes, crentes, esperançosos que a Terra tenha sido feita para ao nosso redor girar agora que finalmente nos temos e queremos.

 

Meu amor, hoje fugimos numa viagem só nossa, rumo a uma aventura só nossa, a nossa, onde não cabe mais ninguém, onde não entra mais ninguém, em direcção à praia e ao mar, para nos fazermos unos com a água e a areia num abraço de condenados como se hoje fosse o primeiro e último Dia dos Namorados e o teu pai estivesse à minha espera já depois da hora de deitar.

 

E está, e por isso não lhe contaste nada, não contaste sobre as roupas na mochila e o bilhete de comboio ou os poucos euros surripiados por amor e agora na carteira, à espera deste sonho, braços nos braços à volta de uma fogueira enquanto uma onda vai e outra vem, à espera de um amanhã em tudo melhor enquanto a tua cabeça encontra repouso no meu ombro.

 

E por isso, meu amor, este é mesmo o primeiro Dia dos Namorados, o primeiro de muitos, até porque amanhã vem outro e depois outro, e os namorados serão isso mesmo, namorados e amantes, viajantes à procura de um outro lar, um outro tecto, um outro mar.

 

E assim fomos e assim partimos a meio na noite e a lua já alta, olha em frente, ali está Iemanjá. A tua cara veio nas notícias e a minha também, desaparecidos, apaixonados, e o teu pai nas televisões a prometer-nos tanta surra, todas as agressões. Passaram três semanas e o teu lenço deu à costa e só então percebemos que não voltávamos, agora livres e para sempre casados no primeiro Dia dos Namorados.

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