Joana Simões Piedade

Grécia

A “vida sem perspectiva” de quem espera num campo de refugiados

Joana Simões Piedade passou duas semanas no campo de Souda, na ilha grega de Chios. Além do trabalho voluntário, quis dar um rosto e uma voz às pessoas que passam os dias à espera que algo aconteça. A jornalista de 37 anos conta o que viveu e como se vive “sem perspectiva”

Texto de Ana Maria Henriques • 09/02/2017 - 18:11

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“Estive duas semanas de Janeiro na ilha grega de Chios. Senti que queria fazer parte do que se passa, conhecer as histórias. Temos informações das condições, das viagens de barco, mas eu queria conhecer as vidas das pessoas antes de terem tido que fugir. Queria deixar de ser uma espectadora pelas redes sociais e pelos media e ir um bocadinho mais além, estar ao vivo, cara a cara, tentar ajudar dentro daquilo que é possível fazer em duas semanas.

 

Chios é uma ilha que até há pouco tempo vivia do turismo. Existem imensos hotéis, hostels, restaurantes, cafés. No primeiro dia quase me esqueci que havia dois campos de refugiados com cerca de duas mil pessoas na ilha. À medida que me aproximava do campo onde estive, o de Souda, começava a ver tendas e sentia-se um ambiente taciturno. A electricidade é intermitente, à noite não se vê nada, não há aquecimento nem água quente para os banhos. As condições são muito más, dramáticas nestes meses de Inverno.

 

Lá, o meu dia-a-dia prendia-se muito com a distribuição das refeições, que são muito parcas. Ao pequeno-almoço é um pacote de leite, pão pita e pequenos pacotes de manteiga ou compota. Para almoço e jantar, malgas de feijão ou grão e fruta. Tudo em doses muito pequenas e repetitivas — sobretudo para as pessoas que estão ali há quase um ano.

 

Já o dia-a-dia de quem lá vive faz-se de estar em filas à espera da refeição e dormir. Com as crianças ainda se consegue fazer actividades. Mas os dias dos homens são muito tristes, desoladores. Passam horas a fio sem nada para fazer ou para se entreterem. Chegam de contextos muito complicados e não têm perspectiva. No caso das crianças acompanhadas pelos pais é diferente. Havia um pai afegão, o Zafar, que me fez lembrar o filme A Vida é Bela (1997, Roberto Benigni). Estes pais são heróis. Tentam, por tudo, conservar a infância dos filhos para que eles não se apercebam de onde estão. E isso emociona bastante. A Europa abandonou-os naqueles campos e os dias passam todos muito lentamente e com uma grande angústia para a maior parte deles.

 

Uma das coisas que mais me chocou foi uma tentativa de suicídio por parte de um rapaz de 16 anos que estava sozinho, o M [vê foto em cima]. Foi uma coisa muito marcante. Aí percebi que, no campo, havia apoio psicológico para os voluntários mas não para as pessoas que lá vivem. Nós estamos lá semanas ou um mês; as pessoas podem ficar ad eternum. A explicação é sempre a mesma: o Governo grego não quer que os campos se tornem num lugar permanente. Mas há pessoas em situação provisória há quase um ano. É impossível não nos perguntarmos: onde está o dinheiro? Lá não está de certeza.

 

Cada pessoa que está no campo é um mundo. São todos diferentes e têm formas diferentes de lidar com a situação. Nada disso é tido em conta pelas autoridades. Conheci uma nigeriana de 25 anos, grávida e a partilhar tenda com um homem, que não tinha sido ouvida por ninguém. Era como se não existisse, nem uma ecografia tinha feito. É provável que daqui a umas semanas nasça uma criança naquele contexto. Sozinha. Isto é 2017, na Europa. Custa a acreditar.

 

Enquanto estive na ilha fui escrevendo os Diários de Chios. Falava com muitas pessoas durante o dia e à noite processava tudo. Chegava à pensão, desgravava os registos e escrevia os textos. Aquelas pessoas passsaram a ter nomes, vidas. Podíamos ser nós. Os sírios que conheci tinham vidas normais, eram médicos, professores, tinham bom acesso a saúde e educação, eram felizes. Alguns perderam a família, a casa foi destruída, foram forçados a fugir.

 

Vou mantendo o contacto com aqueles que têm Facebook ou What’s App, mas às vezes é difícil. Muitos aprendem a falar inglês mas não escrevem nem percebem, trocamos mensagens de voz. Para eles é bom estar em contacto com o exterior, fora daquele perímetro, e esse também é o papel dos voluntários. Pode ser só a troca de uma fotografia ou perguntar se está tudo bem.

Já tinha estado em campos de voluntariado em Angola e na Argélia e, por isso, achava que tinha consciência do que ia encontrar, que estava preparada. Para ser honesta, não estava. A situação é muito mais revoltante do que imaginava: pelas condições de vida e pela falta de uma resposta, de uma acção concreta das entidades competentes. A questão vai além das tendas e das condições físicas, é mesmo a falta de uma perspectiva. Muitas das crianças nunca foram à escola. Como é que se vão inserir normalmente na sociedade? Quanto mais tempo lá ficam, mais complicado é. As ONG e os voluntários acabam por, erradamente, substituir as entidades oficiais. E só vi um campo no meio de todos os outros que há espalhados por aí. Isto replicado a uma escala global é muito assustador.

 

Antes de ir fiz uma recolha de roupa para levar, dentro do que é possível individualmente. Chego lá e há um armazém cheio de todo o tipo de roupa. Aqueles armazéns, que se replicam por todo o lado, são o espelho do que nós somos, da abundância da nossa sociedade. Por um lado é solidariedade das pessoas, por outro é mais uma forma de mostrar como o mundo é injusto e desequilibrado.

 

Como europeia, sinto vergonha. Como é que a Europa, baluarte dos direitos humanos, consegue ter esta atitude perante outros seres humanos? Sinto vergonha de não sermos capazes de fazer melhor. Saí de lá mais revoltada do que tinha ido. Eu vim embora, mas eles continuam naquela vida sem perspectiva.”

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