Pilar Olivares/Reuters

Crónica

Verdade ou consequência?

Percebo que se pense numa redução de custos, mas importa percebermos as consequências de certas políticas de redução de custos e os verdadeiros impactos que têm junto das populações

Texto de Afonso Borga • 06/02/2017 - 10:57

Afonso é estudante de Serviço Social
Afonso é estudante de Serviço Social, irrequieto por natureza e um apaixonado por causas sociais

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Nos últimos meses tive a oportunidade de realizar um estágio de final de licenciatura numa cidade no norte de Minas Gerais (Brasil), onde trabalhei, com mais quatro colegas, junto de bairros sociais construídos pelo Estado. Nestes bairros, onde a prostituição e o tráfico de droga são problemas diários, ocorre uma situação que está na génese da sua construção e que condiciona, logo à partida, o garante do bem-estar social. Passo a explicar.

 

Segundo a lei, por cada 500 casas o Estado deve construir infra-estruturas de apoio à população, como centros de saúde, escolas, espaços verdes… ora, para evitar mais despesas o Estado acaba por construir 499 casas e dessa forma desresponsabiliza-se pela construção das infra-estruturas.

 

O resultado são longas filas de casas, onde vivem em média quatro pessoas e bairros compostos por 499 casas que se seguem uns após os outros e onde o acesso à saúde, educação e lazer é deficitário. Em contrapartida, o Estado acaba por ter enormes gastos no sistema de apoio social.

 

Esta situação que relatei como introdução ao artigo serve de exemplo a muitas situações que ocorrem também no nosso país em várias áreas e que acabam por se traduzir numa verdade que cria inúmeras consequências para os cidadãos e para o próprio Estado.

 

Esta situação do “499” ocorre, por exemplo, quando empresas mantêm uma “política” de estágios profissionais ao invés de procederem a contratações, recorrendo constantemente a estagiários que, mesmo que tenham feito um trabalho excelente superando todos os objectivos, acabam por não ser contratados porque um estágio profissional sempre é financiado.

 

Ocorre na Saúde, quando, em nome da redução de custos, os pacientes ficam em longas listas de espera para tratamentos de saúde ou milhares continuam sem acesso a médico de família, ao invés de se apostar na prevenção e na proximidade dos cuidados. Ocorre na Educação, quando centenas de professores deixam de ser contratados e dá-se origem a turmas com mais alunos do que o suposto.

 

Percebo que se pense numa redução de custos, dados os constrangimentos económicos existentes, mas importa percebermos as consequências destas políticas de redução de custos e os verdadeiros impactos que estas têm junto das populações.

 

Mais, importa perceber que muitas destas “políticas” acabam por ter um efeito perverso, agravando problemas já existentes e criando outros, onde se acabam por gastar mais fundos, imagine-se se ao invés de, por exemplo, se gastarem milhões de euros todos os anos com as urgências hospitalares se apostasse num sistema de prevenção e de proximidade que evitasse idas a urgências desnecessárias.

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