CAPTA/\Paulo Nunes dos Santos

Entrevista

A Europa fechou-lhes a porta (e lá fora estão -15ºC)

O P3 entrevistou o fotógrafo português Paulo Nunes dos Santos, que passou uma semana na companhia de migrantes que se encontram "bloqueados" em três armazéns abandonados em Belgrado, na Sérvia. São mais de mil os homens, mulheres e crianças que enfrentam diariamente temperaturas negativas com a energia de apenas uma refeição diária

Texto de Ana Marques Maia • 07/02/2017 - 17:47

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Homens, mulheres e crianças de várias origens aguardam em armazéns abandonados, em Belgrado, na Sérvia, pela oportunidade de cruzar a fronteira em direcção ao coração da Europa. O encerramento da “Rota dos Balcãs” transformou esse objectivo numa ilusão e paralisou a sua marcha em lugar inóspito: o governo sérvio lhes não presta auxílio e dificulta activamente as iniciativas de apoio das várias organizações não-governamentais presentes no local.

 

Apesar do pouco tempo que lá passou, o fotógrafo português Paulo Nunes dos Santos percebeu rapidamente que estava perante um novo cenário de crise humanitária. Nada de novo. Após o acompanhamento da situação dos refugiados em Lesbos e Idomeni, Belgrado tinha apenas uma nova e dura condicionante: a baixíssima temperatura. O P3 entrevistou o fotógrafo do colectivo CAPTA que relatou a experiência de viver entre migrantes nessas condições durante uma semana. Parte das imagens que captou podem ser vistas aqui.

 

Como são as condições de vida dos migrantes na região?

Devo confessar que o que vi não me surpreendeu. Nas últimas semanas tinha já lido e visto várias fotos do local, e estava em contacto com colegas e amigos de Belgrado que há muito acompanham a situação, por isso sabia à partida o que iria encontrar. Os três armazéns onde vivem estas pessoas (algumas há quase sete meses) estão num estado deplorável e o frio que se faz sentir nesta altura do ano só vem agravar a situação – enquanto lá estive, as temperaturas chegaram aos 15 graus negativos. As pessoas acendem fogueiras para se aquecerem. Não existe outro modo. E, para isso, recorrem aos barrotes velhos da linha de comboio que existem nas proximidades. Esta madeira foi embebida em óleos e químicos para prevenir deterioração e quando é queimada liberta um fumo tóxico que arde nos olhos e se sente nos pulmões; as partículas no ar são visíveis a olho nu e o som de tosse é uma constante. [Os residentes] não têm acesso a água potável. Há apenas um tubo estreito por onde escorre água todo o tempo. Não estou certo que seja água boa para beber, mas eles usam-na para tudo. Também não há chuveiros nem casas-de-banho. Um grupo de voluntários construiu uma espécie de latrina entre dois os armazéns, mas o sistema não é prático e as pessoas não o utilizam. Para o banho aquecem água num barril, em cima de uma fogueira, e lavam-se cá fora pela manhã, quando as temperaturas são as mais baixas. Há também falta de comida. A maioria tem acesso a uma única refeição diária que é distribuída por um grupo de voluntários. Apesar das más condições em que vivem, o que me despertou mais interesse foi mesmo a rotina e o tédio. Para além da higiene diária e dos 15 minutos que esperam todos os dias na fila para a refeição, a maioria passa o dia deitado a dormir ou à beira de uma fogueira a ver vídeos e fotografias no telemóvel. Aqueles que ainda têm dinheiro, ou algum familiar em algum país europeu que os possa ajudar, vão magicando o próximo passo com os traficantes que aparecem nos armazéns a toda a hora. Há sempre alguém de partida, alguém que se irá aventurar a saltar a fronteira durante a noite; também há muitos que voltam de mãos a abanar e com algumas mazelas depois da tentativa falhada de passar para a Hungria ou Croácia – os países na chamada "rota das Balcãs" que decidiram fechar as fronteiras para prevenir que o movimento migratório chegue à Europa Ocidental.

 

Podes partilhar algumas histórias de pessoas que conheceste?

A maioria são pessoas que no pais de origem seriam consideradas de classe media ou média-alta. Na realidade essas são as únicas que têm meios financeiros para uma viagem tão longa e cara. Passar tantas fronteiras com ajuda de traficantes não fica barato. São também gente com alguma educação. Muitos deixaram o país onde viviam devido a ameaças dos Taliban contra eles e as suas famílias, outros vêm mesmo à procura de uma vida melhor – normalmente inspirados pela ideia romântica de que na Europa há dinheiro para toda a gente. As histórias são quase sempre as mesmas. Deparei-me com algumas histórias que me despertaram mais a curiosidade. Por exemplo, a de um ex-polícia paquistanês que, após dez tentativas frustradas de saltar as fronteiras com a Hungria e Croácia, quer agora voltar para casa mas não sabe como. Conheci também várias crianças entre os 9 e os 13 anos que estão a viajar sozinhas. Algumas têm família há muito tempo a residir na Europa, outras viajam sozinhas porque os pais ou irmãos as deixaram para trás no momento em que conseguiram saltar a fronteira; têm esperança esperança de conseguirem, brevemente, pagar aos traficantes os 3 mil euros que dizem garantir o transporte seguro da criança até à fronteira com a Áustria. Mas de todas estas histórias a que realmente me chocou foi a de Ibrahim, um jovem Afegão que após poucos minutos de me conhecer começou a falar abertamente da sua simpatia para com os Taliban. Disse-me que o objectivo dele é chegar a França, arranjar trabalho para fazer dinheiro e aprender a construir bombas. Garantiu-me que o objectivo final é a vingança contra os Estados Unidos da América e todos os outros países que trouxeram guerra ao seu país – nem que por isso tenha de morrer em sacrifício. Das centenas de refugiados e migrantes que tenho conhecido nos últimos dois anos, é a primeira vez que alguém mostra abertamente simpatia por um grupo e por actividades terroristas. Perguntei-lhe se estava ciente de que o que me estava a dizer era o perfeito argumento para os grupos nacionalistas que lutam contra a entrada de refugiados na Europa. Respondeu que sabia bem das consequências, mas que seria uma hipocrisia não admitir o que realmente sente. Voltei a encontrar Ibrahim nos dias que se seguiram e em nenhuma altura se mostrou arrependido de ter dito o que disse a um jornalista.

 

Que tipo de apoio é que os migrantes estão a receber e por parte de que instituições?

O apoio aos migrantes em Belgrado é mínimo. O governo não os expulsa, mas também não os ajuda. Muito pelo contrário, causa dificuldades a organizações não-governamentais internacionais a operar no local. A ajuda chega só mesmo pelas mãos de gente comum e de pequenos grupos de voluntários que ocasionalmente trazem roupa, mantas e oferecem uma refeição diária. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) instalaram meia dúzia de tendas mas a polícia interveio de imediato. Apesar de ainda estarem erguidas, somente uma está a ser usada por crianças e alguns doentes.

 

Do ponto de vista político, o que achas que está a falhar? Que tipo de providências deveriam estar a ser tomadas e o que está a impedir o processo?

Do ponto de visto politico o maior entrave está mesmo no acesso às fronteiras. A Hungria e a Croácia, os dois únicos países se separam a Sérvia da Europa Ocidental, estão a patrulhar muito eficazmente as fronteiras. Continuam a deixar passar refugiados mas apenas em ‘conta-gotas’. Somente entre 15 a 20 por dia, e só os registrados é que passam - como é o caso dos refugiados sírios. Qualquer migrante que esteja em situação de ilegalidade é apanhado, é algo que acontece todos os dias. As histórias de abuso por parte dos policias fronteiriços, tanto do lado Húngaro como do lado Croata, são impressionantes. Muita gente me mostrou marcas de mordida de cães polícia e nódoas negras na cara e no corpo com marcas de bastões; houve quem me contasse que lhes foram confiscados os sapatos, o dinheiro e o telemóvel. Dizem que a polícia os obriga a ficar descalços durante várias horas na neve e no gelo. Muitos estão convencidos de que a Áustria e a Alemanha estão a criar pressão e a financiar a Hungria e a Croácia para manterem as fronteiras fechadas. Dizem que o objectivo é para prevenir que eles entrem em espaço Schengen, onde o controlo é menor. A meu ver, esta situação deve-se à indecisão dos lideres da União Europeia, que nunca conseguiram, ou quiseram, chegar a um consenso para controlar esta crise. Com o tema um pouco fora da agenda mediática, adoptaram agora por uma dormência aparente. Talvez acreditem que se ninguém falar no assunto, o problema deixe de existir. A realidade é que o problema persiste e está a tomar proporções cada vez mais dramáticas sem que se chegue a qualquer tipo de solução viável. Quer Bruxelas queira quer não, esta crise migratória não irá acabar tão cedo.

 

 

Quais os sentimentos que prevalecem, agora que voltaste a Dublin? O que trouxeste contigo?

Estes seres humanos não merecem ser deixados no esquecimento. Há muita gente boa a viver em condições miseráveis, gente que apesar de estar a passar um mau momento recebe sempre qualquer pessoa de braços abertos. Não houve nenhuma ocasião, ao aproximar-me deles para conversar ou fotografar, em que não me oferecessem imediatamente um lugar para me sentar, comida ou um simples chá. São gestos que fazem parte da sua cultura, mas que se acentuam ainda mais nestas circunstâncias. Custa-me encontrar alguém como Ibrahim (o afegão que quer vingar o seu povo), no meio de gente tão afável e genuína. Custa-me, unicamente, porque sei que são os Ibrahims deste mundo quem causam as maiores dificuldades a tantos outros que genuinamente se sacrificam para fugir a situações miseráveis. As fugas, a meu ver, nada têm a ver com ganância; tratam-se, sim, de pura necessidade de sobrevivência.

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