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Crónica

Não olhes para trás

72 horas, foi tudo quanto tiveste. 72 horas sem dormir, porque se não dormires talvez o tempo não passe e porventura o Sol não nasça

Texto de João André Costa • 09/01/2017 - 09:37

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Não olhes para trás, já aqui estiveste, já viste tudo, já viste a praia e o mar e está tudo no mesmo lugar, tu é que já não estás no mesmo lugar e, portanto e apesar de ainda agora teres chegado, está na altura de partir, andar para a frente, dizer adeus às paredes e às ruas, aos amigos e à família, às plantas e animais com a mesma rapidez com que disseste olá e sem olhar para trás.

 

72 horas, foi tudo quanto tiveste. 72 horas sem dormir, porque se não dormires talvez o tempo não passe e porventura o Sol não nasça. Mas o Sol nasce, nasce sempre, e a noite cai, cai sempre e, passadas 72 horas, aqui estamos mais uma vez de mala às costas, de casa às costas e vida às costas, por isso não olhes para trás, não olhes para trás outra vez, não vá acontecer baralhar e voltar a dar todas as ideias e emoções, até porque a porta já está aberta e o mundo à espera e esta não é senão a cama de ninguém, fria como a morte, às escuras num quarto onde o tempo não passa e as fotografias não envelhecem, sempre à espera de quem já não volta, até porque os anos voam e a idade não perdoa.

 

72 horas e viste Lisboa, o castelo e Alfama, a tua avó, os anos de uma irmã e as alegrias desta sobrinha, e entre um pôr-do-sol e a noite ainda tiveste tempo de deixar o nome num livro que já não é teu mas de todos, e tudo, mas mesmo tudo, sem respirar, sem parar, sem ter tempo para pensar, apenas sentir o pulsar, o calor, os abraços, as lágrimas e os sorrisos enrolados no vaivém das marés enquanto esta alma morre, feliz, na mortalha de uma onda que nunca virá dar a terra.

 

Por isso, não olhes para trás, leva tudo quanto viste, sentiste e beijaste no coração, nas mãos, na mente, e caminha, seguro, na certeza de que conquanto não olhares para trás o regresso será tão certo como o futuro, não olhes e não queiras ficar quando atrás de ti já nada resta para além do fogo e das cinzas e Sodoma e Gomorra de joelhos no chão, em chamas e a arder. E não fosse pelas fagulhas trazidas pelo vento e caídas no ombro e talvez não tivesses olhado para trás através dos olhos de sal da mulher de Lot, para sempre condenado a contemplar o mundo que um dia foi teu, incapaz de verter uma lágrima sequer.

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