O país onde o uso de drogas é punido com a morte

autoria Ana Marques Maia

// data 05/01/2017 - 15:38

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ATENÇÃO: Esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.


"Hitler massacrou três milhões de judeus", afirmou incorrectamente Rodrigo Duterte, o actual presidente das Filipinas, apenas três meses após a tomada de posse, no final de Setembro de 2016. "Existem três milhões de toxicodependentes [no país] e eu ficaria feliz por massacrá-los." Já noutra comunicação oficial, o mesmo presidente deixa o alerta: "Estes filhos da mãe estão a destruir as nossas crianças. Estou a avisar-vos, não entrem nisso, mesmo que sejam polícias, porque vou mesmo matar-vos." Duterte foi ainda mais longe: "Se conhecem algum toxicodependente, matem-no vocês mesmos, porque ser o país a fazê-lo seria muito doloroso”. A guerra contra o narcotráfico e a toxicodependência foi uma das principais armas eleitorais de Duterte; ainda em campanha, afirmou: "Esqueçam isso dos direitos humanos. Se eu chegar ao palácio presidencial, farei exactamente o que fiz enquanto presidente de câmara [de Davao]. Traficantes de droga, assaltantes e vagabundos: é melhor saírem daqui, porque vou matar-vos. Vou atirar os vossos corpos à baía de Manila e engordar os peixes." Duterte chegou mesmo a aconselhar aqueles que andam à procura de uma boa oportunidade de negócio a abrir uma agência funerária. "Garanto-vos que não vão abrir falência. Se o vosso negócio abrandar eu mesmo direi à polícia: 'Sejam mais rápidos para ajudarem as pessoas a ganhar dinheiro'", disse o Presidente filipino, citado pelo The Guardian. Apesar de morrerem, em média, 36 pessoas por dia sob acção dos esquadrões da morte estatais e de milícias populares, o apoio ao presidente por parte do povo filipino mantém-se inabalável; o instituto de investigação Social Weather Stations confirma que Duterte apresenta níveis de popularidade "muito bons". No exterior, cresce a contestação. Grupos de defesa dos Direitos Humanos e líderes de vários países — nomeadamente dos EUA e da União Europeia — têm manifestado preocupação e lançado avisos ao novo governante. Duterte defende-se, afirmando: "Podem chamar-me o que quiserem. Mas eu nunca fui hipócrita como vocês. Há migrantes a fugir do Médio Oriente e vocês permitem que eles morram, e estão preocupados com a morte de mil, dois mil, três mil [pessoas durante a guerra ao tráfico nas Filipinas]?” Apesar da guerra prometida contra o narcotráfico e o consumo de estupefacientes ter garantido a vitória ao actual chefe de estado filipino, as estatísticas demonstram que o consumo de drogas no país não é atípico, em comparação com outros países do mundo. O Gabinete para o Crime e Drogas da ONU registou um consumo de anfetaminas, em 2014, a rondar os 2,3% da população entre os 15 e os 64 anos — que é um dos valores mais elevados do mundo, mas que está em linha com o registado nos EUA ou na Austrália. Noutros tipos de drogas, como o ecstasy ou os opiáceos, o consumo entre os filipinos é mesmo bastante baixo. Ronald Dela Rosa, chefe da Polícia Nacional das Filipinas, afirmou que a criminalidade no país está em queda - com a excepção dos homicídios. Harra Besorio, esposa de uma das vítimas da "operação de limpeza" de Duterte, contou à Reuters que a polícia invadiu a sua casa, na cidade de Pasay, sem dispor de mandado judicial, e que iniciou buscas que passaram por despir a sua filha menor, no sentido de verificar se teria droga escondida no corpo. O marido — que Harra admitiu ser traficante — e o sogro foram espancados à sua frente. Mais tarde, ambos foram levados para a esquadra, onde foram assassinados. A Reuters teve acesso a um relatório de investigação que descreve o modus operandi de grupos civis armados. "Os atiradores normalmente chegam em grupos de dois ou três numa motorizada sem matrícula; usam chapéus de basebol e camisas ou casacos com os botões apertados, aparentemente para esconder as suas armas, e atiram ou esfaqueiam as vítimas sem aviso, frequentemente à luz do dia, sem grande preocupação com aqueles que testemunham o crime.” O website inquirer.net, que pertence a um grupo noticioso filipino, actualiza semanalmente os dados relativos ao número de vítimas desta operação governamental.

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