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Crónica

O ano pode ser novo, mas a vida é sempre a mesma

Em vez de andar atrás de mais dinheiro para comprar mais e melhor para a minha filha, resolvi trabalhar menos horas e fazer mais do que gostava para ter alguma coisa de valor para lhe oferecer, não no Natal mas para o resto da vida

Texto de Hugo Filipe Lopes • 29/12/2016 - 12:15

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O Ano Novo é considerado altura de resoluções mas há quem as tome independentemente da altura do ano em causa.

 

A minha foi tomada no Verão e foi simplesmente inverter o paradigma. Em vez de andar atrás de mais dinheiro para comprar mais e melhor para a minha filha, resolvi trabalhar menos horas e fazer mais do que gostava para ter alguma coisa de valor para lhe oferecer, não no Natal mas para o resto da vida.

 

Para a generalidade dos portugueses, isso fez de mim um empreendedor quando na verdade criei uma empresa para que mais do melhor de mim estivesse disponível para os que me rodeiam e também por estar fatigado de gestão ineficaz. Assim nada como ser o meu próprio gestor incompetente. E a gestão ineficaz não é apenas a pobreza com que as chefias gerem os trabalhadores e o seu esforço, é também a de uma sociedade que nos cobra por sermos pais ausentes e impotentes quando nos obriga a trabalhar pelo menos oito horas por dia, às quais se juntam uma hora de almoço mais o tempo de deslocação, deixando livres provavelmente as piores duas do nosso dia, aquelas em que estamos mais cansados, mais stressados e fartos de tudo.

 

Esse é o tempo que temos para estar com os nossos filhos, que provavelmente estarão também eles cansados e sonolentos. Isto ao mesmo tempo em que somos criticados por estar emocional e fisicamente indisponíveis e comprar o amor das nossas crianças, quando o mundo em que vivemos está cada vez mais preparado para que a nossa descendência assente na servidão laboral e cada vez menos no amor. Porque esse é-nos arrancado diariamente nas situações que nos vão corroendo lenta e imperceptivelmente, seja o dinheiro que não chega, o autocarro que nunca mais vem, o tempo que não dá para tudo o que há para fazer, o que tem de ser feito e o que queremos mesmo fazer — e quem acaba por sofrer são os filhos que não percebem o malabarismo e a prestidigitação que implica ser pai e mãe nestes dias, acabando por ser educados por escolas pouco preparadas para isso e televisões e computadores, porque já nem com a rua podemos contar.

 

A única maneira que consegui descobrir para contrariar isso foi sair da cidade, gerindo o meu próprio tempo e abrir uma empresa com um sócio que pensa como eu. Não é um luxo, é um risco que nem todos podem ou querem correr e no fim, se tudo correr mal, não há ninguém para culpar senão a mim próprio. Nem patrão, nem colegas nem sistema nem crise.

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