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Solidariedade

Super Babysitters: amas “low cost” chegam ao Porto

Amas são voluntárias, famílias pagam dois euros por hora. Projecto de "babysitting" quer ajudar famílias carenciadas sem rede familiar. Depois de Lisboa é a vez do Porto

Texto de Mariana Correia Pinto • 23/11/2016 - 17:53

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Não fosse a ajuda de Mónica Ferreira e trabalhar não seria possível para a mãe das duas crianças, de quatro e seis anos, de quem a jovem lisboeta cuida todas as noites de segunda-feira. É um dilema clássico: não havendo uma rede familiar de apoio e sendo o emprego a horas que os infantários não cobrem, com quem deixar os filhos? E, quando o ordenado é curto, compensa ir trabalhar, tendo de pagar a quem tome conta dos pequenos? Quando Luís Fonseca e José Silva se aperceberam do “isolamento” em que viviam muitas pessoas em Portugal, quiseram fazer algo para fintar o problema. As Super Babysitters cuidam de crianças de famílias carenciadas a preços reduzidos — e querem ser a rede de apoio que escasseia nas sociedades contemporâneas. Depois de Lisboa, o projecto de voluntariado criado pela dupla está a arrancar no Porto.

 

Sónia Ribeiro não podia ter ficado mais satisfeita com a notícia. Ao regressar ao Porto, depois de nove anos a viver fora da cidade berço, soube que o projecto de voluntariado com o qual tinha colaborado como gestora em Lisboa ia expandir-se para a sua cidade. “Fui à sessão de apresentação e dei logo os meus dados. Agora que trabalho por conta própria posso gerir melhor o tempo e finalmente ser babysitter”, disse ao P3 a gestora de 29 anos formada na Universidade Católica.

 

Quando o projecto arrancou em Lisboa, em finais de 2014, Sónia trabalhava numa empresa e a rigidez dos horários não lhe permitiam abraçar a tarefa de ama. Ainda assim, vestiu a pele de “super gestora”, ajudando a criar uma rede de voluntárias (apenas no feminino, já lá vamos) e de famílias, maioritariamente referenciadas por instituições. Aos poucos, como peças de Lego que encaixam, o plano ganhou forma. Em Lisboa, mais de 100 mulheres já foram formadas para serem "babysitters" e 108 pessoas — pais e crianças — foram apoiadas. Este ano, o projecto conquistou o prémio Empreendedor Social 2016, atribuído no evento Portugal Economia Social.

 

No fim do mês, Sónia vai assumir o grupo que aparecer no Porto para a primeira sessão de formação. A expectativa é grande. Na apresentação do Super Babysitters no início do mês, o auditório da Universidade Católica ficou bem composto e várias pessoas quiseram deixar dados para serem contactadas. A formação é obrigatória, mesmo para potenciais voluntárias com formação em educação de infância ou mães experientes. “Fazemos algumas dinâmicas de grupo, um momento para se colocarem dúvidas”, exemplifica Sónia. “Naturalmente, as pessoas apercebem-se se querem ou não fazer parte. Acaba por não haver a questão do sirvo ou não sirvo.”

 

Os requisitos são também uma primeira triagem. As voluntárias devem ser maiores de idade, ter alguma experiência no contacto com crianças, registo criminal limpo e uma carta de recomendação. Criado por dois homens, o projecto optou por aceitar apenas mulheres. Uma lacuna que querem contornar em breve: “As famílias foram dizendo que confiavam mais em mulheres. Sabemos que os homens têm a mesma capacidade, mas a confiança é muito importante e não quisemos ir contra o que as famílias pensavam”, justifica Francisco Neves, que entrou no projecto em Julho de 2015.

 

Apesar de as babysitters serem 100% voluntárias, as famílias pagam dois euros por cada hora de "babysitting". A ideia, explica Francisco Neves, gestor do projecto, é que essas contribuições sejam reinvestidas no projecto. Serve, por exemplo, para pagar os registos criminais e eventuais deslocações das voluntárias.

 

Outra regra inquebrável é a de fazer o "babysitting" sempre na casa das famílias — e nunca na das cuidadoras. O pedido mais comum é o de ir buscar as crianças ao infantário ou escola, levá-las para casa e esperar que os pais cheguem. Para aceder ao serviço não é preciso apresentar declarações de rendimentos: a maior parte das famílias é referenciada por instituições, mas também é possível pedir apoio directamente contactando a associação.

 

Quando a rede não existe

Uma mãe solteira, imigrante de primeira geração, que chega a Portugal com um ou dois filhos e não tem ninguém que a apoie. Ou pais com trabalho por turnos, à noite, em centros comerciais. São esses os perfis mais comuns entre quem procura este apoio. “Muitas pessoas dizem-nos que sem a nossa ajuda não conseguem aceitar este tipo de empregos”, conta Francisco Neves, 25 anos.

 

Foi com essa realidade que Mónica Ferreira se cruzou. “A mãe é cantora e se não ficasse com os miúdos ela não podia ir aos ensaios”, diz. Quando chega, o jantar está quase sempre dado e Mónica tem como missão ficar com as crianças até à hora de as deitar. “Ela agradece-me muito, diz que não conseguiria tratar de tudo sozinha. Fico muito contente por ajudar”, diz a jovem que aprendeu o "bê-a-bá" sobre crianças às custas da família grande onde cresceu.

 

A rede está já a crescer no Porto onde, como em Lisboa, se sente mais o isolamento: “Percebemos que nas pequenas cidades o projecto fazia menos sentido”, explica Francisco. Com as crianças como “ponto de união”.

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