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Uma campanha para abanar universitários: “Violência no namoro não é para ti”

Até ao final do ano lectivo, uma campanha do Governo feita em parceria com as federações académicas quer ajudar os jovens a definir barreiras e percepcionar actos de violência no namoro. Nas universidades portuguesas este é um problema “muito grave”, diz a APAV

Texto de Mariana Correia Pinto • 04/10/2016 - 06:49

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Breves silêncios, olhares constrangidos e expressões de surpresa. A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, gravou as reacções de alguns representantes de federações académicas de todo o país como parte do diagnóstico. Nos últimos meses, enquanto discutiam juntos o desenho de uma nova campanha contra a violência no namoro entre universitários, os jovens não tinham dúvidas em reconhecer o abuso sexual e as agressões físicas como violência. Mas alguns franziam o sobrolho ao ouvir falar do controlo do telemóvel ou das redes sociais, da vigilância da roupa, da moderação do relacionamento com os amigos, dos ciúmes excessivos. A nova campanha nacional lançada esta terça-feira, em Guimarães, faz da “percepção do que são actos de violência” uma “prioridade”, refere a governante. Até ao fim do ano lectivo, o tema vai andar nas universidades de todo o país.

 

É uma espécie de segredo público nas academias nacionais. Toda a gente sabe que existe, mas ninguém fala sobre isso. Daniel Freitas, presidente da Federação Académica do Porto (FAP), entende bem a distância entre a “percepção baixíssima” da violência no namoro nos universitários e a realidade: “Não conheço casos, não nos são denunciados, mas todos os dados nos dizem que o problema existe.” E é “muito grave”, completa Daniel Cotrim, assessor técnico da direcção da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). “Os estudos indicam que a violência no namoro no meio universitário tem índices altíssimos e denúncias muito baixas. O número de jovens violadas também é muito alto e esses casos também não são denunciados.”

 

Um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) divulgado no início deste ano fez soar alarmes na equipa de Catarina Marcelino. Entre os 2500 jovens (entre os 12 e os 18 anos) inquiridos, quase um quarto (22%) considerava “normal” a violência no namoro. Por outro lado, em 2015 chegaram ao Instituto de Medicina Legal 699 casos de violência no namoro (em todas as idades), um aumento de 44% relativamente ao ano anterior — e isso, sabe-se, é apenas uma parte do problema. Muitas das vítimas nunca chegam a fazer queixa.

 

Os dados “são impressionantes”, diz Catarina Marcelino, “mas não surpreendentes”. A dimensão da violência doméstica e de género em Portugal é ela própria uma prova dos factos. Os agressores têm uma idade média de 40 anos — mas não foi aos 40 anos que se tornaram agressores. Algo falhou. Continua a falhar. “São pessoas que nasceram e cresceram em democracia, andaram na escola no sistema democrático. Faz-nos pensar se, enquanto sociedade, estamos a fazer o suficiente. Não estamos.”

 

De universitários para universitários

Em busca do sucesso na nova campanha, a socialista delineou um plano que passou por “implicar os jovens na mudança”. Quis saber como se pensa aos 20 anos para comunicar com quem tem 20 anos. Os cartazes, desenhados pela Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social (Seies) e pensados também em parceria com algumas associações habituadas a lidar com audiências mais jovens, querem levar o slogan à exaustão: “Muda de curso: violência no namoro não é para ti”.

 

Para usar ao peito — e gravar a mensagem —, haverá crachás com o lema gravado. Um vídeo que quer ser viral. E vários momentos de “campanha pública” pensados para os próximos meses. Além disso, as próprias universidades “vão ter autonomia para organizar eventos”. Palavra a Daniel Freitas, da FAP: o grande desafio passa por mostrar que, estando associada a comportamentos como agressão física, a violência “está presente em muitos outros”, sobretudo “numa época determinadamente digital. Invadir o espaço privado, o telemóvel ou o e-mail, não são comportamentos aceitáveis.”

 

O perfil de vítimas e agressores é difícil de traçar. Sabe-se que, entre os mais jovens, a violência “é muito transversal”, aponta Daniel Cotrim, chamando a atenção para o facto de essa realidade também se começar a notar nos números gerais. As raparigas ainda são mais vítimas do que agressoras, mas a balança está cada vez mais equilibrada, atingindo os rapazes “quase na mesma proporção”.

 

A par da campanha dirigida aos universitários, está a ser delineada uma “estratégia nacional de educação para a cidadania”, em parceria com o Ministério da Educação. A ideia é dar mais competências às escolas logo a partir do 1º ciclo e até ao ensino secundário. Actuar cada vez mais cedo — porque os relatos de violência chegam também cada vez mais cedo. “Nos últimos anos houve um retrocesso nessa matéria, com o fim dos tempos lectivos para as áreas de projectos nas escolas”, lamenta Catarina Marcelino. Do grupo de trabalho formado para debater este assunto, deverá sair uma estratégia para pôr no terreno já no próximo ano lectivo.

 

É uma mudança urgente. Para o psicólogo Daniel Cotrim, a intervenção devia começar “quando as crianças entram no jardim de infância, por volta dos três anos”. Acontece assim em países como a Austrália e Canadá, com resultados inspiradores. “Parte do currículo relacionado com a cidadania é feito com as famílias e complementado pelas escolas. Isto cria sociedades activas”. Na prática, é olhar para a campanha feita em Portugal com a reciclagem e readaptar a fórmula. “Hoje toda a gente recicla porque os filhos ensinaram os pais. Se fomos capazes disso nesse campo, também somos na violência.”

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