Brian Snyder/Reuters

Crónica

Um “cris de coeur”

Os média criam um retrato das candidatas femininas, como sendo inviáveis, incompetentes, irrelevantes. Enquanto não houver um "cris de coeur" massivo, a emancipação e a igualdade são um oásis

Texto de Ana Margarida Meira • 03/10/2016 - 15:31

Ana Margarida Meira é arrebatada pelas letras, pelo efémero, por flores e vinho tinto maduro.

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Hillary Clinton é a primeira mulher na história dos Estados Unidos da América a ser nomeada para candidata às eleições presidenciais do país, conquistando a maioria dos votos do partido democrata. Após a nomeação, Clinton faz uma intervenção para agradecer aos seus apoiantes e para declarar que pode vir a ser a primeira mulher Presidente dos EUA e que qualquer outra mulher pode vir a ser a próxima. Tal como a vitória de Barack Obama, a nomeação e (possível) eleição de Clinton é um marco histórico e cultural que representa a mudança de mentalidade e de evolução social desta nação.

 

Porque é que um país como os Estados Unidos da América nunca elegeu uma mulher como Presidente? Países como a Turquia, o Paquistão, o Bangladesh, Israel ou o Sri Lanka elegeram mulheres como primeiras-ministras ou presidentes. Num país onde mais de 50% da população é feminina, onde a educação e a formação é considerada das melhores do mundo, porque é que as mulheres continuam afastadas da Sala Oval? A mais moderna forma de democracia nos Estados Unidos deu o seu primeiro suspiro em 1788. Em 1920, as mulheres ganham plenamente, em todos os Estados, o direito de voto. É a décima nona emenda. Há, portanto, 96 anos. E ainda não se considerou uma mulher como líder eleita deste país. Com uma população que é, mais de metade, feminina ainda não se elegeu uma mulher como Presidente dos EUA.

 

Pode ser porque, de forma consciente e racional, os cidadãos estadunidenses não viram o potencial em nenhuma mulher para assumir este cargo. Legítimo, se este argumento for a causa desta disparidade. Porém, existe outro motivo para a percepção dos eleitores ser moldada de forma parcial: os média. Segundo o estudo de Erika Falk, no artigo “Women for President”, os média criam um retrato complexo das candidatas femininas, como sendo inviáveis, incompetentes, irrelevantes. O facto de se salientar a diferença entre um candidato e outro pelo género revela o sexismo que domina, ainda, a cobertura mediática e a opinião dos eleitores.

 

Segundo Falk, parece haver um interesse maior na aparência física e nas escolhas de estilo das candidatas do que no seu perfil e percurso profissional. Donald Trump concorda. Hillary Clinton não tem o “presidential look”. Enquanto Secretária de Estado, Clinton compreendeu a dinâmica das pessoas — sublinhe-se o substantivo: pessoas — que faziam parte da sua equipa. Para que todos conseguissem conciliar a sua vida profissional e pessoal, Clinton fazia um horário que permitisse à sua equipa existir fora do seu local de trabalho. Porquê? Porque acredita que, mais do que profissionais, a equipa dela é formada por seres humanos. E porque acredita que as mulheres conseguem conciliar carreiras de sucesso e as suas vidas pessoais, se assim o quiserem. Clinton, como líder e responsável pela competência e eficácia da sua equipa, percebe que é preciso criar oportunidades, eliminar discriminações, fazer jus aos Direitos Humanos, criando uma sociedade que funcione e seja igualitária para todos.

 

Mas para Trump ela não tem “stamina”, não tem nada do que é preciso para ser Presidente dos Estados Unidos da América. Carly Fiorina, a candidata republicana, também não tinha nada do que é necessário para ser líder do país, principalmente o “look”. "Can you imagine that, the face of our next next president? I mean, she's a woman, and I'm not supposed to say bad things, but really, folks, come on. Are we serious?", afirmou Trump.

 

Enquanto houver uma percentagem tão grande de pessoas a apoiar candidatos e, sobretudo, ideias como estas a desigualdade e discriminação serão eternas. Enquanto não houver um "cris de coeur" massivo, doloroso, arrasador, a emancipação e a igualdade são um oásis. Não são as mulheres, apenas, que devem gritar. São todos, pela humanização, pelas injustiças, pela objectificação, pela evolução. De todos, por todos, é preciso um "cris de coeur". Não é um apelo ao voto de Hillary. É um apelo a uma corrida justa, a oportunidades iguais, a análises imparciais. É um apelo ao acreditar que tudo é possível. Até uma mulher como Presidente dos Estados Unidos da América. Basta um "cris de coeur".

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